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sábado, 5 de novembro de 2011

"E quero capturar o presente que pela sua própria natureza me é interdito: o presente me foge, a atualidade me escapa, a atualidade sou eu sempre no já"
Clarice Lispector In: Água Viva

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Quintanares!

Medo da nuvem
Medo Medo
medo da nuvem que vai crescendo
que vai se abrindo
que não se sabe
o que vai saindo
medo da nuvem Nuvem Nuvem...

Mario Quintana
“Eu mesma me surpreendo ao perceber quantas horas por ano tenho para gastar. Capacito-me de que na realidade tenho mais tempo do que penso – e isso significa que vivo mais do que imaginei. Isso se fizermos as contas das horas do dia, da semana, do mês, do ano. Quem fez o cálculo foi um inglês, não sei seu nome.
Um ano tem 365 dias – ou seja, 8.760 horas. Não é enganoso não, são oito mil setecentas e sessenta horas.
Deduzam-se oito horas por dia de sono. Agora deduzam-se cinco dias de trabalho por semana, a oito horas por dia, durante 49 semanas (descontando, digamos, um mínimo de duas semanas de férias, e mais uns sete dias de feriado). Deduza duas horas diárias empregadas em condução, para quem mora longe do local de trabalho.
Nessa base sobram-lhe 1.930 horas por ano. Mil novecentas e trinta horas para se fazer o que se quiser, ou puder. A vida é mais longa do que a fazemos. Cada instante conta.”


Clarice LispectorIn: Aprendendo a viver

Clariceando

"Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também a minha força"
Clarice Lispector In: aprendendo a viver

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Roseando...

“Já fui mesmo rosa [dizia ela]. Não pude ser mais tempo. Ninguém pode... Estou na desflor. Mas estas mãos já foram muito beijadas. De seda... Depois fui vendo que o tempo mudava, não estive querendo ser como a coruja – de tardinha não se voa...”.Guimaraes Rosa In:Corpo de baile

quarta-feira, 2 de novembro de 2011


"Li o livro sobre as abelhas e desde então tomo conta sobretudo da rainha-mãe. As abelhas voam e lidam com flores."

Clarice Lispector In: Água Viva

"Quando eu tiver forças de ficar sozinho e mudo - então soltarei para sempre a borboleta do casulo."

Clarice Lispector In: Um Sopro de Vida

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Canção Amiga



"As palavras não nascem amarradas,
elas saltam, se beijam, se dissolvem,
no céu livre por vezes um desenho,
são puras, largas, autênticas, indevassáveis."

Carlos Drumond de Andrade

Hoje é dia de Drumond.


"Teu aniversário, no escuro,
não se comemora.

Escusa de levar-te esta gravata.
Já não tens roupa, nem precisas.

Numa toalha no espaço há o jantar,
mas teu jantar é o silêncio, tua fome não come.

Não mais te peço a mão enrugada
para beijar-lhe as veias grossas.
Nem procuro nos olhos esfriados
aquela interrogação: está chegando?

Em verdade paras te de fazer anos.
Não envelheces. O último retrato
vale para sempre. É um homem cansado
mas fiel: carteira de identidade.

Tua imobilidade é perfeita. Embora a chuva,
o desconforto deste chão. Mas sempre amaste
o duro, o relento, a falta. O frio sente-se
em "mim, que te visito. Em ti, a calma.(...)"

Carlos Drumond de Andrade in: A rosa do povo

sábado, 29 de outubro de 2011

O que faz andar a estrada? … o sonho.
Enquanto a gente sonhar
a estrada permanecerá viva.
… para isso que servem os caminhos.
Para nos fazerem parentes do futuro."

Mia Couto In: Mar Me Quer

Livros


Dia Nacional do Livro: 29 de outubro. Foi nesse dia, em 1810, que a Real Biblioteca Portuguesa foi transferida para o Brasil, quando então foi fundada a Biblioteca Nacional e esta data escolhida para o DIA NACIONAL DO LIVRO.
O Brasil passou a editar livros a partir de 1808 quando D.João VI fundou a Imprensa Régia e o primeiro livro editado foi "MARÍLIA DE DIRCEU", de Tomás Antônio Gonzaga.

Lira I

Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado;
De tosco trato, d’ expressões grosseiro,
Dos frios gelos, e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal, e nele assisto;
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
E mais as finas lãs, de que me visto.
Graças, Marília bela, Graças à minha Estrela!

Tomás Antonio Gonzaga In: Marilia de Dirceu

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Quero

"Quando eu morrer não me chores,
Deixo a vida sem sodade;
- Mandu sarará,
Tive pro pai o desterro,
Por mãe a infelicidade,
- Mandu sarará ...
Papai chegou e me disse:
- Não hás de ter um amor!
- Mandu sarará,
Mamãe veio e me botou
Um colar feito de dor,
- Mandu sarará ...
Que o tatu prepare a cova
Dos seus dentes desdentados,
- Mandu sarará ...
Para o mais desinfeliz
De todos os desgraçados,
- Mandu sarará ..."
Mario de Andrade In: Macunaíma
(…)O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.
O que podia ter sido é uma abstração
Que permanece, perpétua possibilidade,
Num mundo apenas de especulação.
O que poderia ter sido e o que foi
Convergem para um só fim, que é sempre presente.
Ecoam passos na memória
Ao longo das galerias que não percorremos
Em direção à porta que nunca abrimos
Para o roseiral. Assim ecoam minhas palavras
Em tua lembrança.
Mas com que fim
Perturbam elas a poeira sobre uma taça de pétalas,
Não sei.

(…)
T.S.Eliot In: Quatro Quartetos

quinta-feira, 27 de outubro de 2011


Para tua fome
Eu teria colocado meu coração
Entre os ciprestes e o cedro
E tu o encontrarias
Na tua ronda de luta e incoesão:
A ronda que te persegues.

Para a tua sede
As nascentes da infância:
Um molhado de fadas e sorvetes.
E abriria em mim mesma
Uma nova ferida
Para tua vida.


Hilda Hilst
Num sotão que inventei, ou que existia,
criei bichos-de-seda em velhas caixas:
ofício repugnante, que eu amava.
Lembro a inquietação dos vermes, lembro a trama
dos fios, lembro o medo
que chamava lá da escada.

Hoje, num sotão mais noturno,
no último degrau dos meus terrores,
deito-me no pó entre os meus anjos
amortalhados em caixas vazias,
junto da cadeira alta, com as roupas
com que na infância mefingi rainha.
Nela senta-se a Dona dos Enigmas
e me recobre com os fios grudentos
que vão sesoltando deseus olhos.

Lya Luft