(Às vezes),
Somos frágeis, falíveis, perecíveis. Somos carentes, mortais e disponíveis.
Somos o desânimo dessa tristeza sem rosto. Somos um pedido de socorro em
silêncio. Somos tão humanos, tão passíveis de erros, vulneráveis e solitários
caminhando a esmo. E nos sentimos tantas vezes tão menores do que o nosso real
tamanho. E, na nossa finitude, a dor consegue passar a única sensação de
eternidade dentro do Tempo flácido que, impotentes, vemos definhando.
Somos o nó preso na garganta, alguma falta de fé, somos uma vaga lembrança
daquilo que a gente quer. Somos a voz embargada contida no choro. Somos o olhar
assustado e a vontade do grito.
Mas não é isto que está escrito.
Somos humanos. E corajosos por superar nossas fraquezas. Somos a falta que nos
move, a busca pela delicadeza. Somos a vontade profunda que a angústia não
tenha o peso de nos levar à insanidade. Somos a necessidade de sentir alegria e
virar do avesso a saudade. Somos uma luz que brilha e transmuta a agonia. Somos
o instinto de vida que guia nossos passos. Somos a cura contida num abraço.
Somos a labuta diária pela imortalidade. Somos nossos sonhos crescentes, justos
e realizáveis. Somos o vazio que amplia o horizonte da sanidade. Somos o
mistério, dádiva divina e nenhuma certeza. Somos a base que construímos e os alicerces
que nos sustentam. Somos a lembrança acesa de que tudo é transitório, mudança.
Somos quem quisermos ser: desejo que a força impere e que nada desbote nossa
esperança.
Marla de Queiroz