Um cadim de tudo que gosto, música, literatura, fotografia e outras coisinhas que me fazem feliz....
Mostrando postagens com marcador Cecilia Meireles. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cecilia Meireles. Mostrar todas as postagens
sábado, 17 de maio de 2014
sábado, 15 de março de 2014
De Que São Feitos os Dias?
De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos, ...
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.
Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.
De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.
Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças...
Cecilia Meireles
De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos, ...
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.
Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.
De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.
Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças...
Cecilia Meireles
terça-feira, 10 de setembro de 2013
Há um nome que nos estremece,
como quando se corta a flor
e a árvore se torce e padece.
Há um nome que alguém pronuncia
sem qualquer alegria ou dor,
e que em nós, é dor e alegria.
Um nome que brilha e que passa,
que nos corta em puro esplendor,
que nos deixa em cinza e desgraça.
Nele se acaba a nossa vida,
porque é o nome total do amor
em forma obscura e dolorida.
Há um nome levado no vento.
Palavra. Pequeno rumor
entre a eternidade e o momento.
Cecília Meireles
como quando se corta a flor
e a árvore se torce e padece.
Há um nome que alguém pronuncia
sem qualquer alegria ou dor,
e que em nós, é dor e alegria.
Um nome que brilha e que passa,
que nos corta em puro esplendor,
que nos deixa em cinza e desgraça.
Nele se acaba a nossa vida,
porque é o nome total do amor
em forma obscura e dolorida.
Há um nome levado no vento.
Palavra. Pequeno rumor
entre a eternidade e o momento.
Cecília Meireles
quinta-feira, 25 de julho de 2013
Aceitação
É mais fácil pousar o ouvido nas nuvens
e sentir passar as estrelas
do que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos.
É mais fácil, também, debruçar os olhos no oceano
e assistir, lá no fundo, ao nascimento mudo das formas,
que desejar que apareças, criando com teu simples gesto
o sinal de uma eterna esperança.
Não me interessam mais nem as estrelas, nem as formas do mar,
nem tu.
Desenrolei de dentro do tempo a minha canção:
não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar.
e sentir passar as estrelas
do que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos.
É mais fácil, também, debruçar os olhos no oceano
e assistir, lá no fundo, ao nascimento mudo das formas,
que desejar que apareças, criando com teu simples gesto
o sinal de uma eterna esperança.
Não me interessam mais nem as estrelas, nem as formas do mar,
nem tu.
Desenrolei de dentro do tempo a minha canção:
não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar.
Cecília Meireles in : Viagem
terça-feira, 16 de julho de 2013

Cavalgada
num grande galope,
num ritmo bravio,
para onde acena a tua mão.
Pelas suas ondas revoltas,
seguem desesperadamente
todas as minhas estrelas soltas,
com a máxima cintilação.
Ouve, no tumulto sombrio,
passar a torrente fantástica!
E, na luta da luz com as trevas,
todos os sonhos que me levas,
dize, ao menos, para onde vão!
num ritmo bravio,
para onde acena a tua mão.
Pelas suas ondas revoltas,
seguem desesperadamente
todas as minhas estrelas soltas,
com a máxima cintilação.
Ouve, no tumulto sombrio,
passar a torrente fantástica!
E, na luta da luz com as trevas,
todos os sonhos que me levas,
dize, ao menos, para onde vão!
Cecília Meireles in: Viagem
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
“Devíamos poder preparar os nossos sonhos como os artistas, as suas composições.
Como a matéria sutil da noite e da nossa alma, devíamos poder construir essas
pequenas obras-primas incomunicáveis, que, ainda menos que a rosa, duram apenas
o instante em que vão sendo sonhadas, e logo se apagam sem outro vestígio que a
nossa memória. Como quem resolve uma viagem, devíamos poder escolher essas
explicações sem veículos nem companhia, por mares, grutas, neves, montanhas e
até pelos astros, onde moram desde sempre heróis e deuses de todas as
mitologias, e os fabulosos animais do Zodíaco. Devíamos, à vontade, passear
pelas margens do Paraíba, lá onde suas espumas crespas correm com o luar por
entre as pedras, ao mesmo tempo cantando e chorando. Ou habitar uma tarde
prateada de Florença, e ir sorrindo para cada estátua dos palácios e das ruas,
como quem saúda muitas famílias de mármore... Ou contemplar nos Açores
hortênsias da altura de uma casa, lagos, de duas cores e cestos de vime nascendo
entre fontes, com águas frias de um lado e, do outro, quentes... Ou chegar a
Ouro Preto e continuar a ouvir aquela menina que estuda piano há duzentos anos,
hesitante e invisível, enquanto o cavalo branco escolhe, de olhos baixos, o
trevo de quatro folhas que vai comer. Quantos lugares, meu Deus, para essas
excursões! Lugares recordados ou apenas imaginados. Campos orientais
atravessados por nuvens de pavões. Ruas amarelas de pó, amarelas de sol, onde os
camelos de perfil de gôndola estacionam, com seus carros. Avenidas cor-de-rosa,
por onde cavalinhos emplumados, de rosa na testa e colar ao pescoço, conduzem
leves e elegantes coches policromos ... E lugares inventados, feitos ao nosso
gosto; jardins no meio do usar; pianos brancos que tocam sozinhos; livros que se
desarmam, transformados em música [...] E sonhar com os que amamos e conhecemos,
e estão perto ou longe, vivos ou mortos... Sonhar com eles no seu melhor
momento, quando foram mais merecedores de amor imortal... Ah!... - (que gostaria
você de sonhar esta noite?)” Cecilia Meireles
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
sábado, 22 de setembro de 2012
Primavera
Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.
Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.
Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.
Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.
Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.
Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.
Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.
Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.
"Cecília Meireles in: Obra em Prosa - Volume 1"
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
"Esta é uma primavera diferente, com as matas
intactas, as árvores cobertas de folhas – e só os poetas, entre os
humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos
bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.
Mas é certo que a
primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra
maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação. Algum dia,
talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a
primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste
ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros,
com outros cantos e outros hábitos – e os ouvidos que por acaso os
ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e
amou".
Cecília Meireles - Primavera in: obra em prosa - v. I
Cecília Meireles - Primavera in: obra em prosa - v. I
quinta-feira, 19 de julho de 2012
quarta-feira, 18 de julho de 2012
quinta-feira, 24 de maio de 2012
segunda-feira, 14 de maio de 2012
sexta-feira, 20 de abril de 2012
sábado, 7 de abril de 2012
Em colcha floridaMe deitei.
Pássaros pintados
Escutei.
Grinaldas nos ares
Contemplei.
Da morte e da vida
Me lembrei.
Dias acabados
Lamentei.
(Flores singulares
Não bordei.
A canção trazida
Não cantei.
Naveguei tormentas pelos quatro lados.
Não as amansei!
Ó grinaldas, flores, pássaros pintados,
Como dormirei?)
Cecília Meireles
sábado, 25 de fevereiro de 2012
Palavras
Espada entre flores,
Rochedo nas águas,
Assim firmes, duras,
Entre as coisas fluídas,
Fiquem as palavras,
As vossas palavras.
Pois se por acaso
Dentro dos sepulcros
Acordassem as almas
E em sonhos confusos
Suspirassem rumos
De história passadas
E houvesse um tumulto
De ânsias e de lágrimas,
- lembrassem as lágrimas
caídas no mundo
nas noites amargas
cercadas dos muros
das vossas palavras.
Todas as palavras
Nos espelhos puros
Que a memória guarda,
Fique o rosto surdo,
A música brava
Do humano discurso.
De qualquer discurso.
Só de morte exata
Sonharão os justos,
Saudosos de nada,
Isentos de tudo,
Pascendo auras claras,
Livres e absolutos,
Nos campos de prata
Dos túmulos fundos.
No meio das águas,
Das pedras, das nuvens,
Verão as palavras:
Estrelas de chumbo,
Rochedos de chumbo.
A cegueira da alma.
O peso do mundo.
Adeus, velhas falas
E antigos assuntos!
(Cecília Meireles)
Rochedo nas águas,
Assim firmes, duras,
Entre as coisas fluídas,
Fiquem as palavras,
As vossas palavras.
Pois se por acaso
Dentro dos sepulcros
Acordassem as almas
E em sonhos confusos
Suspirassem rumos
De história passadas
E houvesse um tumulto
De ânsias e de lágrimas,
- lembrassem as lágrimas
caídas no mundo
nas noites amargas
cercadas dos muros
das vossas palavras.
Todas as palavras
Nos espelhos puros
Que a memória guarda,
Fique o rosto surdo,
A música brava
Do humano discurso.
De qualquer discurso.
Só de morte exata
Sonharão os justos,
Saudosos de nada,
Isentos de tudo,
Pascendo auras claras,
Livres e absolutos,
Nos campos de prata
Dos túmulos fundos.
No meio das águas,
Das pedras, das nuvens,
Verão as palavras:
Estrelas de chumbo,
Rochedos de chumbo.
A cegueira da alma.
O peso do mundo.
Adeus, velhas falas
E antigos assuntos!
(Cecília Meireles)
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
TENTATIVA
Andei pelo mundo no meio dos homens!
uns compravam jóias, uns compravam pão.
Não houve mercado nem mercadoria
que seduzisse a minha vaga mão
Calado, Calado, me diga, Calado
por onde se encontra a minha sedução.
Alguns, sorriam, muitos, soluçaram,
uns, porque tiveram, outros porque não.
Calado, Calado, eu, que não quis nada,
por que ando com pena do meu coração.
Cecilia Meireles in: Obras Poéticas
uns compravam jóias, uns compravam pão.
Não houve mercado nem mercadoria
que seduzisse a minha vaga mão
Calado, Calado, me diga, Calado
por onde se encontra a minha sedução.
Alguns, sorriam, muitos, soluçaram,
uns, porque tiveram, outros porque não.
Calado, Calado, eu, que não quis nada,
por que ando com pena do meu coração.
Cecilia Meireles in: Obras Poéticas
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Diálogo
Minhas palavras são a metade de um diálogo obscurocontinuado através de séculos impossíveis.
Agora compreendo o sentido e a ressonância
que também trazes de tão longe em tua voz.
Nossas perguntas e respostas se reconhecem
Olhos que choraram.
Conversamos dos dois extremos da noite, como de praias opostas.
Mas com uma voz que não se importa...
E um mar de estrelas se balança entre o meu pensamento e o teu.
Mas um mar sem viagens.
Cecília Meireles
terça-feira, 29 de novembro de 2011
Tão velho estou como árvore no inverno,
vulcão sufocado, pássaro sonolento.
Tão velho estou, de pálpebras baixas,
acostumado apenas ao som das músicas,
à forma das letras.
Fere-me a luz das lâmpadas, o grito frenético
dos provisórios dias do mundo:
Mas há um sol eterno, eterno e brando
e uma voz que não me canso, muito longe, de ouvir.
Desculpai-me esta face, que se fez resignada:
já não é a minha, mas a do tempo,
com seus muitos episódios.
Desculpai-me não ser bem eu:
mas um fantasma de tudo.
Recebereis em mim muitos mil anos, é certo,
com suas sombras, porém, suas intermináveis sombras.
Desculpai-me viver ainda:
que os destroços, mesmo os da maior glória,
são na verdade só destroços, destroços.
Cecília Meireles In : Poemas
Assinar:
Postagens (Atom)








