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sábado, 27 de julho de 2013



Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez.

Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios.

MIA COUTO, in:  JESUSALÉM

terça-feira, 11 de junho de 2013

Eu saio de mim, ensaio, devaneio e caio. Retorno criado, servil à serpente do mundo. Eu trago o pecado. Sorvo o pecado até o fim para que haja um recomeço. Ao tentar de novo eu me dissolvo, não resolvo, quebro e degenero as linhas em que escrevo. Assim mesmo escrevo e reescrevo errantemente o arremate da história da minha vida. Mas não lhe dou o devido fim pela covardia, o medo do que vem depois, da vida atirada ao tudo e ao vasto vazio que é o nada, rasgado e costurado com fatos consumados, que me consome. Em meu martírio dou o braço a torcer, a cara a bater. E um dia, quem sabe, a cabeça a prêmio. - FotologSaio de mim
para quem sou
e jamais chego ao destino.

No caminho do ser
meu gozo é me perder.

Meu coração só tem morada
onde se acende um outro peito.

Meu anjo está cego,
meu poeta está mudo,
meu guru ficou amnésico.
O poeta
sabia que não ia por ali.
Eu vou por onde não sei.
Meu aqui
é sempre além.
MIA COUTO in: "Idades Cidades Divindades",

quinta-feira, 6 de junho de 2013

"(...) Diz-se que a tarde cai. Diz-se que a noite também cai. Mas eu encontro o contrário: a manhã é que cai. Por um cansaço de luz, um suicídio da sombra. Lhe explico. São três os bichos que o tempo tem: manhã, tarde e noite. A noite é quem tem asas." (MIA COUTO)

sábado, 2 de fevereiro de 2013

'Aprendi a viver sem explicação. Ficamos com medo do que não podemos explicar e perdi esse medo. Não é preciso explicar ou prever tudo. Vivo bem nessa ignorância. Adoro.'

Mia Couto

sábado, 29 de outubro de 2011

O que faz andar a estrada? … o sonho.
Enquanto a gente sonhar
a estrada permanecerá viva.
… para isso que servem os caminhos.
Para nos fazerem parentes do futuro."

Mia Couto In: Mar Me Quer

domingo, 17 de julho de 2011

Meus Julhos

1. Sou julho,
estou explicado só pelo sol

Meu erro
é procurar um território
apto a nascer

A única geografia
que me aceita é a poesia

Como a chuva
que repousa entre nuvem e terra
me escrevo
na ausência de todas as línguas

2. Me esqueço-me:
só me falto eu
para ficar todo só

3. Antes de nascer
já eu tinha envelhecido tudo

Por isso,
não me espanta
o casal de pedras
nem a árvore que engravidou

Minha doença,
felizmente,
é muito miraculável.


Mia Couto in: Raiz de Orvalho e Outros Poemas

quinta-feira, 30 de setembro de 2010


"Há nomes que eu acho que estão desencostados...
- Caso do beija-flor. É um nome que deveria ser consertado. A flor é que levaria o titulo de beija - pássaros. ..."

Mia Couto In: fala com um descamponês

"Há nomes que eu acho que estão desencostados...
- Caso do beija-flor. É um nome que deveria ser consertado. A flor é que levaria o titulo de beija - pássaros. ..."

Mia Couto In: fala com um descamponês