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domingo, 31 de julho de 2011

Raízes

Triângulo em Cravo e Flauta Doce

"Ela disse que não tinha certeza de nada, que podia mesmo ser uma alu­cinação, um pesadelo, uma projeção subconsciente ou qualquer outra coisa assim. Enumerou suposições, os olhos preocupados evitando os meus, e disse também que preferia não contar, que sabia que eu ficaria preocupado e iria falar com ele, que talvez fosse agressivo e negasse tudo, ainda que o que ela havia visto e escutado fosse verdade.
Acrescentou que apesar de tudo nada tinha a ver com a vida dele, nem com a minha, e falou ainda em voz baixa que talvez também não tivesse nada a ver com sua própria vida.
Foi então que seus olhos se apertaram um pouco e por um momento pareceram cheios de lágrimas. Achei que fosse ilusão minha e não falei nada, até que ela começou a roer as unhas e afundou a cabeça na mesa.
Afastei o copo e a garrafa de vinho para tocar sua cabeça, mas inter­rompi o gesto em meio e fiquei com a mão suspensa sobre seus cabelos. Ela pareceu perceber, pois ergueu os olhos assustada, sem fazer nenhum outro movimento. Cheguei a pensar então em não insistir mais, disse para mim mesmo repetidas vezes que talvez fosse melhor para nós três que eu saísse imediatamente dali para não voltar nunca mais. Mas qualquer coisa me obri­gava a permanecer.
Esperei sem dizer nada até que ela recomeçasse a falar. Depois de algum tempo olhando as mãos, disse que meu irmão não dormia há várias semanas, passava a noite inteira fumando, levantando da cama para ir à cozinha, ao banheiro, ou então à sala, onde colocava sempre aquela mesma música medie­val em cravo e flauta doce, enquanto escrevia até de madrugada. Ela não che­gou a dizer - mas percebi que não suportava mais aquela melodia nem aque­les cigarros nem o barulho da máquina nem aquele escuro roendo o corpo e a mente dele. Andava magro, disse, nervoso, tinha olheiras fundas, às vezes ficava muito pálido e apoiava-se no primeiro objeto à vista como se fosse cair. Fiquei ouvindo, mas soube que não era só isso. E não insisti, apenas continuei olhando para ela enquanto falava.
Então ela disse devagar que estava grávida, e que contara a ele. Passou sem sentir os dedos de unhas roídas sobre o ventre ainda raso, depois disse que ele jurara matá-la se não tirasse a criança.
Perguntei se essa seria a causa do desespero dele, daquela música, das noites em branco, dos cigarros, das tonturas. Evitando me encarar, ela disse apressada que não, mas pouco depois tocou no copo cheio de vinho e disse que sim, pelo menos, acrescentou, pelo menos antes de saber aquilo ele andava mais calmo. Ficou calada de repente para depois dizer com esforço que sim, que tinha certeza que sim, que compreendia que fosse dessa maneira, que ela própria às vezes se horrorizava e pensava no ponto a que tinha chegado. O ponto terrível, ela repetiu, terrível.
Ela falou muitas coisas, e fiquei lembrando das suas tranças, antiga­mente, das suas meias sempre escorregando pelas pernas finas, da mania de subir nas árvores mais altas e ficar lá em cima até que alguém a obrigasse a des­cer para jantar ou tomar banho. Tinha sempre os cabelos finos caídos sobre os olhos numa franja rala, um ar obstinado de animal selvagem, as unhas roídas até a carne. E os olhos devorados por qualquer coisa incompreensível. Des­pertei com o toque de seus dedos no meu pulso, dizendo que não suportava mais. Perguntei se queria que eu falasse com ele, mas pareceu não ouvir.
Disse que não suportava olhar para os braços dele e ver as manchas roxas endureci­das sobre as veias e saber da droga escorrendo por dentro, pelo sangue, enor­mizando as pupilas, desnudando os ossos, empalidecendo a pele.
Perguntei lento se tinha certeza, ela disse que sim, encontrava sempre seringas e ampolas e pedaços de borracha jogados pela casa, e tinha medo, perto dele tudo parecia fazer parte de um pesadelo, ela disse.
Ficou repetindo tudo isso enquanto eu pensava nele, brincando sozi­nho, voltado sempre para o sombrio, seus livros no porão, sua criação de ara­nhas, os mesmos cabelos finos dela, o mesmo ar obstinado, as suas vozes rou­cas, o seu medo.
De repente ela disse que talvez fosse melhor eu não falar nada, ele achava que ninguém sabia, talvez se voltasse contra ela, tinha medo.
Tentei acalmá-la dizendo que não era tão terrível assim, e fui repetindo como se fosse coisa decorada que: nas pequenas aldeias gregas isso era­comum e que em alguns países da Europa e mesmo no interior do Brasil ­era prática normal não era assim tão assustador. Sentindo-me vagamente ridículo, e também um tanto cruel, repeti que: vivíamos um- empo de con­fusão e que todas as normas vigentes estavam caindo que aos poucos também todas as pessoas aceitariam todas as coisas e que talvez nós fôssemos apenas alguns dos precursores dessa aceitação. Falei dessas coisas até cansar, enumerei nomes, contei lendas, lembrei mitos, mas não consegui evi­tar seu olhar de fera provocando tremores e abismos no fundo de minha voz.
Ficamos durante muito tempo olhando o copo de vinho cheio e a gar­rafa vazia. Até que senti uma presença às minhas costas. Voltei-me devagar, procurando não encará-lo, mas ao subir o olhar pelo seu corpo percebi as manchas nas veias ressaltadas pela magreza dos braços. Suas mãos tremiam segurando um cigarro. Abraçou-me com um carinho desesperado, acariciou­me os cabelos e as faces chamando-me lentamente de mano, meu mano, per­guntou por que eu ficava tanto tempo sem aparecer, disse que eu precisava ler seus últimos poemas, olhou para ela e disse que ela estava espantada de como ele estava finalmente conseguindo uma linguagem própria, e disse ainda que eu precisava mesmo ler, e empurrou-me suave para a sala repetindo que eu precisava escutar alguns trechos dos poemas novos ao som de uma melodia medieval que descobrira há pouco tempo.
Sentei na poltrona e esperei de olhos fechados. Depois fiquei sentindo a sua mão sobre a minha e ouvindo a sua voz rouca lendo coisas estranhas, mági­cas e tristes ao som de um cravo e uma flauta doce. Sem sentir fui sendo pene­trado por um reino de escuridão, teias, náusea, dor, maldição e luz. Quis vol­tar, mas era muito tarde. A música crescia numa lentidão exasperante e a sua voz repetia enlouquecida coisas doces, difíceis, doentes. Pensei absurdamente numa tia antiga fazendo doce de abóbora com cal num tacho preto, nós três em volta, e num esforço enorme consegui abrir os olhos.
E enquanto a boca dele se aproximava da minha, muito aberta, vi nossa irmã atravessar o corre­dor de luzes apagadas, os olhos baixos, os dedos da mão esquerda pousados de leve sobre o ventre onde cresce meu filho."

Caio Fernando Abreu- In: Caio 3D, O Essencial da Década de 1970

quarta-feira, 27 de julho de 2011


"Não lembro de ninguém assim tão à flor de si mesmo: raiz, caule, folhas e frutos. Talvez seja bonita uma coisa assim, uma pessoa assim. Ou horrível, não sei. Talvez eu esteja sendo gerado, também não sei. Sei que falta pouco. Eu queria que não fosse assim, que não tivesse sido assim. Mas não consegui evitar. A semente recusava-se a vir à tona, eu nem sempre tinha tempo ou vontade de regá-la, e não chovia mais — foi isso o que aconteceu. "
Caio Fernando Abreu in 'O ovo apunhalado'

terça-feira, 26 de julho de 2011


A Invenção de um Modo

Entre paciência e fama quero as duas,
pra envelhecer vergada de motivos.
Imito o andar das velhas de cadeiras duras
e se me surpreendem, explico cheia de verdade:
tô ensaiando. Ninguém acredita
e eu ganho uma hora de juventude.
Quis fazer uma saia longa pra ficar em casa,
a menina disse: “Ora, isso é pras mulheres de São Paulo”
Fico entre montanhas,
entre guarda e vã,
entre branco e branco,
lentes pra proteger de reverberações.
Explicação é para o corpo do morto,
de sua alma eu sei.
Estátua na Igreja e Praça
quero extremada as duas.
Por isso é que eu prevarico e me apanham chorando,
vendo televisão,
ou tirando sorte com quem vou casar.
Porque que tudo que invento já foi dito
nos dois livros que eu li:
as escrituras de Deus,
as escrituras de João.
Tudo é Bíblias. Tudo é Grande Sertão.

Adélia Prado In:"Poesia reunida"
IRENE NO CÉU
Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.
Imagino Irene entrando no céu:
-Licença, meu branco!
E São Pedro Bonachão:
-Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

Manuel Bandeira, In: Antologia Poética

Foto: Pierre Verger

domingo, 24 de julho de 2011

Eu, modo de usar -

Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir.
Não grite comigo, tenho o péssimo hábito de revidar.
Acordo pela manhã com ótimo humor mas ...permita que eu escove os dentes primeiro.
Toque muito em mim, principalmente nos cabelos e minta sobre minha nocauteante beleza.

Tenho vida própria, me faça sentir saudades, conte algumas coisas que me façam rir, mas não conte piadas e nem seja preconceituoso, não perca tempo, cultivando este tipo de herança de seus pais.
Viaje antes de me conhecer, sofra antes de mim para reconhecer-me um porto,um albergue da juventude. Eu saio em conta, você não gastará muito comigo.
Acredite nas verdades que digo e também nas mentiras, elas serão raras e sempre por uma boa causa.
Respeite meu choro, me deixe sózinha, só volte quando eu chamar e, não me obedeça sempre que eu também gosto de ser contrariada. ( Então fique comigo quando eu chorar, combinado?).

Seja mais forte que eu e menos altruísta!
Não se vista tão bem... gosto de camisa para fora da calça, gosto de braços, gosto de pernas e muito de pescoço. Reverenciarei tudo em você que estiver a meu gosto:
boca, cabelos, os pelos do peito e um joelho esfolado,você tem que se esfolar as vezes, mesmo na sua idade.

Leia, escolha seus próprios livros, releia-os.Odeie a vida doméstica e os agitos noturnos.Seja um pouco caseiro e um pouco da vida,não de boate que isto é coisa de gente triste.Não seja escravo da televisão, nem xiita contra.Nem escravo meu, nem filho meu, nem meu pai.Escolha um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o invente muitas vezes.

Me enlouqueça uma vez por mês mas, me faça uma louca boa,uma louca que ache graça em tudo que rime com louca: loba, boba, rouca, boca ...
Goste de música e de sexo. goste de um esporte não muito banal.
Não invente de querer muitos filhos, me carregar pra a missa,apresentar sua familia... isso a gente vê depois ... se calhar ...
Deixa eu dirigir o seu carro, que você adora.

Quero ver você nervoso, inquieto, olhe para outras mulheres,tenha amigos e digam muitas bobagens juntos.
Não me conte seus segredos ... me faça massagem nas costas.
Não fume, beba, chore, eleja algumas contravenções.
Me rapte!

Se nada disso funcionar ... experimente me amar !!!

Martha Medeiros

sábado, 23 de julho de 2011


Mais um mimo carinhoso vindo da Ana do blog: http://pequenasepifaniaseoutrosdevaneios.blogspot.com/
Obrigada Ana é um privilégio recebë-lo.


Regras:

1) Dizer o que achou do selinho:
lindo, "um mimo carinhoso"!!!


2) Indicar 11 amigos e avisá-los:

Mahria: http://www.entretantas-eu.com/
Michele: http://dreamsaboutmylists.blogspot.com/
Merlaine: http://wwwautenticidade.blogspot.com/
Marcela:http://minhamiscelaneacultural.blogspot.com/
Luiza: http://viagemnotempo-2.blogspot.com/
Madalena:http://ceciliameireles2009.blogspot.com/
Shey: http://asteroide1977.blogspot.com/
Mari: http://wwwmarilinda-marilinda.blogspot.com/
http://oventolevoueotempotraz.blogspot.com/
Roselee - http://belleza-pura.blogspot.com/
Marianne - http://blogcognicao.blogspot.com/
Wania - http://encantaventos.blogspot.com/
Canção na plenitude

Não tenho mais os olhos de menina
nem corpo adolescente, e a pele
translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura
agrandada pelos anos e o peso dos fardos
bons ou ruins.
(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)

O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo força — que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
cujas marés — mesmo se fogem — retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços
mas o sonho interminável das sereias.

Lya Luft In: Secreta Mirada

Obrigada Ana! Amei o selo!

1. Link de quem te indicou: http://pequenasepifaniaseoutrosdevaneios.blogspot.com/


2. Qual seu maior sonho? Entre tantos é díficl dizer qual o maior


3. O que te faz sorrir? Meu filho, minha neta, meus amigos, minha familia...


4. Conhece o blog http://pequenasepifaniaseoutrosdevaneios.blogspot.com/ ? Sim sou seguidora


5. Diga o que acha sobre o blog que te enviou o selo: Um devaneio delicioso, sensível e poético.

6. Indique aos blogs que fazem um sorriso nascer em seu rosto, toda vez que você olha:

Roselee - http://belleza-pura.blogspot.com/
Marcela - http://minhamiscelaneacultural.blogspot.com/
Mahria - http://www.entretantas-eu.com/
Marianne - http://blogcognicao.blogspot.com/
Juliana Lira - http://www.reticenciando.com/
Beth Kasper - http://elizabeth-kasper.blogspot.com/
Silvia - http://silvinhahba.blogspot.com
Vanessa -http://caixamgica.blogspot.com/
Wania - http://encantaventos.blogspot.com/
* - http://retalhos-de-amor.blogspot.com/
* - http://adoce-com-limao.blogspot.com/
Shey - http://asteroide1977.blogspot.com/

sexta-feira, 22 de julho de 2011


"É tão estranho
Os bons morrem antes
Me lembro de você
E de tanta gente que se foi
Cedo demais!
E cedo demais..."

Segue em paz Lu, o céu se vestiu de festa pra sua chegada.

quinta-feira, 21 de julho de 2011


Vou Tirar Você do Dicionário


Eu vou tirar do dicionário
A palavra você
Vou trocá-la em miúdos
Mudar meu vocabulário
E no seu lugar
Vou colocar outro absurdo
Eu vou tirar suas impressões digitais
Da minha pele
Tirar seu cheiro
Dos meus lençóis
O seu rosto do meu gosto
Eu vou tirar você de letra
Nem que tenha que inventar
Outra gramática
Eu vou tirar você de mim
Assim que descobrir
Com quantos "nãos" se faz um sim
Eu vou tirar o sentimento
Do meu pensamento
Sua imagem e semelhança
Vou parar o movimento
A qualquer momento
Procurar outra lembrança
Eu vou tirar, vou limar de vez sua voz
Dos meus ouvidos
Eu vou tirar você e eu de nós
O dito pelo não tido
Eu vou tirar você de letra
Nem que tenha que inventar
Outra gramática
Eu vou tirar você de mim
Assim que descobrir
Com quantos "nãos" se faz um sim

Itamar Assumpção e Alice Ruiz
Amarras

A lembrança é um barbante.
Uma ponta amarrada no começo da história,
outra, em nosso tornozelo.
Se o fio estica muito, mal dá para continuar.
É a linha da Memória que vai ficando puída,
a da Lembrança, não.
Feita de fibra grossa,
não afrouxa até que um anjo venha desatá-la
e a transforme numa corredeira de estrelas.
E quanto mais a corredeira for comprida,
tanto mais rica há de ter sido a vida.


Flora Figueiredo In: Chão de Vento

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Amigo

Post "à mineira" em homenagem aos amigos:

"Amigo? Aí foi isso que eu entendi? Ah não; amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça aos demais. Amigo, para mim, é só isto: a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual, o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou - amigo - é que a gente seja, mas sem precisar saber o por quê é que é. Amigo meu era Diadorim; era o Fafafa; o Alaripe; Sesfrêdo. Ele não quis me escutar. Voltei de raiva."
Guimaraes Rosa In.: GRANDE SERTÃO: VEREDAS


Amizade
Como as plantas, a amizade não deve ser muito
nem pouco regada.

A amizade é um meio de nos isolarmos da humanidade
cultivando algumas pessoas.
Carlos Drumond de Andrade In: Avesso Das Coisas


"…Tanto tempo que a gente não se vê! Dei-me conta, com uma intensidade incomum, da coisa rara que é a amizade. E, no entanto, é a coisa mais alegre que a vida nos dá. A beleza da poesia, da musica, da natureza, as delicias da boa comida e da bebida perdem o gosto e ficam meio tristes quando não temos um amigo com quem compartilhá-lhas. Acho mesmo que tudo o que fazemos na vida pode se resumir a isto: a busca de um amigo, uma luta contra a solidão…Lembrei-me de um trecho de Jean-Christophe, que li quando era jovem, e do qual nunca me esqueci. Romain Rolland descreve a primeira experiência com a amizade do seu herói adolescente. Já conhecera muitas pessoas nos curtos anos de sua vida. Mas o que experimentava naquele momento era diferente de tudo o que já sentira antes. O encontro acontecera de repente, mas era como se já tivessem sido amigos a vida inteira. A experiência da amizade parece ter suas raízes fora do tempo, na eternidade. Um amigo é alguém com quem estivemos desde sempre. Pela primeira vez, estando com alguém, não sentia necessidade de falar. Bastava a alegria de estarem juntos, um ao lado do outro.“Christophe voltou sozinho dentro da noite. Seu coração cantava “Tenho um amigo, tenho um amigo”! Nada via. Nada ouvia. Não pensava em mais nada. Estava morto de sono e adormeceu assim que se deitou. Mas durante a noite foi acordado duas ou três vezes, como que por uma idéia fixa. Repetia para si mesmo:”Tenho um amigo”, e tornava a adormecer.” Jean-Christophe compreendera a essencia da amizade. Amiga é aquela pessoa em cuja companhia não é preciso falar. Você tem aqui um teste para saber quantos amigos você tem. Se o silencio entre vocês dois lhe causa ansiedade, se quando o assunto foge você se poe a procurar palavras para encher o vazio e manter a conversa animada, então a pessoa com quem você está não é amiga. Porque um amigo é alguém cuja presença procuramos não por causa daquilo que se vai fazer juntos, seja bater papo, comer, jogar ou transar. Ate que tudo isso pode acontecer. Mas a diferença está em que, quando a pessoa não é amiga, terminado o alegre e animado programa, vem o silencio e o vazio – que são insuportáveis. Nesse momento o outro se transforma num incomodo que entulha o espaço e cuja despedida se espera com ansiedade. Com o amigo é diferente. Não é preciso falar. Basta a alegria de estarem juntos, um ao lado do outro. Amigo é alguém cuja simples presença traz alegria independentemente do que se faça ou diga. A amizade anda por caminhos que não passam pelos programas. Uma estória oriental conta de uma arvore solitária que se via no alto da montanha. Não tinha sido sempre assim. Em tempos passados a montanha estivera coberta de arvores maravilhosas, altas e esguias, que os lenhadores cortaram e venderam. Mas aquela arvore era torta, não podia ser transformada em tabuas. Inútil para os seus propósitos, os lenhadores a deixaram lá. Depois vieram os caçadores de essências em busca de madeiras perfumadas. Mas a arvore torta, por não ter cheiro algum, foi desprezada e lá ficou. Por ser inútil, sobreviveu. Hoje ela está sozinha na montanha. Os viajantes se assentam sob a sua sombra e descansam. Um amigo é como aquela arvore. Vive de sua inutilidade. Pode ate ser útil eventualmente, mas não é isso que o torna um amigo. Sua inútil e fiel presença silenciosa torna a nossa solidão uma experiência de comunhão. Diante do amigo sabemos que não estamos só. E alegria maior não pode existir.

Rubem Alves In: O retorno e o terno

segunda-feira, 18 de julho de 2011

O Lápis

É por demais de grande a natureza de Deus.
Eu queria fazer para mim uma naturezinha
particular.
Tão pequena que coubesse na ponta do meu
lápis.
Fosse ela, quem me dera, só do tamanho do
meu quintal.
No quintal ia nascer um pé de tamarino apenas
para uso dos passarinhos.
E que as manhãs elaborassem outras aves para
compor o azul do céu.
E se não fosse pedir demais eu queria que no
fundo corresse um rio.
No rio eu e a nossa turma, a gente iria todo
dia jogar cangapé nas águas correntes.
Essa, eu penso, é que seria a minha naturezinha
particular:
Até onde o meu pequeno lápis poderia alcançar.

Manoel de Barros In:‘Poemas rupestres’
Esquadros

Eu ando pelo mundo Prestando atenção em cores Que eu não sei o nome Cores de Almodóvar Cores de Frida Kahlo Cores! Passeio pelo escuro Eu presto muita atenção No que meu irmão ouve E como uma segunda pele Um calo, uma casca Uma cápsula protetora Ai, Eu q...uero chegar antes Prá sinalizar O estar de cada coisa Filtrar seus graus... Eu ando pelo mundo Divertindo gente Chorando ao telefone E vendo doer a fome Nos meninos que têm fome... Pela janela do quarto Pela janela do carro Pela tela, pela janela Quem é ela? Quem é ela? Eu vejo tudo enquadrado Remoto controle... Eu ando pelo mundo E os automóveis correm Para quê? As crianças correm Para onde? Transito entre dois lados De um lado Eu gosto de opostos Exponho o meu modo Me mostro Eu canto para quem? Eu ando pelo mundo E meus amigos, cadê? Minha alegria, meu cansaço Meu amor cadê você? Eu acordei Não tem ninguém ao lado...
Adriana Calcanhoto-

domingo, 17 de julho de 2011

Roseando....

"- São muitos e milhões de jardins, e todos os jardins se falam. Os pássaros dos ventos do céu - constantes trazem recados. Você ainda não sabe. Sempre à beira do mais belo. Este é o Jardim de Evanira. Pode haver, no mesmo agora, outro, um grande jardim com meninas. Onde uma Meninazinha, banguelinha, brinca de se fazer de fada... Um dia, você terá saudades, dos dentinhos, que nunca viu, que ela jogou no telhado. Vocês, então, saberão...

Agora me desapareço. Tanto já fui avistado! Nenhuma mal-me-querença?
Mas, de outra vez, parlamenta-se. O resto, em dia mais bonito, contarei, depois e depois..."
Guimarães Rosa In: Ave Palavra
Lição de casa

Você tampa a panela,
dobra o avental,
deixa a lágrima secar no arame do varal.
Fecha a agenda,
adia o problema,
atrasa a encomenda,
guarda insucessos no fundo da gaveta.
A idéia é tirar a tarja preta
e pôr o dedo onde se tem medo.
Você vai perceber
que a gente é que faz o monstro crescer.
Em seguida superar o obstáculo,
pois pode-se estar perdendo
um espetáculo acontecendo do outro lado.
Atravessar o escuro
até conseguir tatear o muro,
que é o limite da claridade.
Se tiver capacidade para conquistá-la,
tente retê-la o mais que puder.
Há que ter habilidade, sem esquecer
que a luz é mulher.
Do inferno assim desmascarado,
é hora de voltar.
Não importa se é caminho complicado,
se a curva é reta,
ou se a reta entorta.
Você buscou seu brilho, voltou completa;
jogou a tranca fora, abriu a porta.

Flora Figueiredo.