Um cadim de tudo que gosto, música, literatura, fotografia e outras coisinhas que me fazem feliz....
domingo, 18 de março de 2012
Clariceando
" A realidade não me surpreende. Mas não é verdade: de repente tenho uma
tal fome da "coisa acontecer mesmo" que mordo num grito a realidade com
dentes dilacerantes. E depois suspiro sobre a presa cuja carne comi.
E por muito tempo, de novo, prescindo da realidade real e me aconchego
em viver da imaginação." Clarice Lispector, in: Um sopro de Vida.
tal fome da "coisa acontecer mesmo" que mordo num grito a realidade com
dentes dilacerantes. E depois suspiro sobre a presa cuja carne comi.
E por muito tempo, de novo, prescindo da realidade real e me aconchego
em viver da imaginação." Clarice Lispector, in: Um sopro de Vida.
sábado, 17 de março de 2012
Auto-retrato
De minha parte,
sou ou creio ser de nariz grande, de olhos peque...nos, com poucos cabelos na cabeça,
de abdômen volumoso, de pernas compridas, de pés grandes, amarelo de pele,
generoso nos amores, impossível com cálculos, confuso com as palavras, terno com as mãos,
lento ao andar, de coração inoxidável, adorador das estrelas, marés, terremotos,
admirador de besouros, caminhante das areias, ignorante das instituições,
chileno perpétuo, amigo dos meus amigos, mudo com inimigos,
intrometido entre os pássaros, mal-educado em casa, tímido nos salões,
audaz na solidão, arrependido sem objeto, horrendo administrador, navegante de boca,
curandeiro da tinta, discreto entre animais, afortunado nas nuvens densas,
pesquisador de mercados, obscuro nas bibliotecas, melancólico nas cordilheiras,
incansável nas florestas, lentíssimo nas respostas, ocorrente anos depois,
vulgar durante todo o ano, resplandecente com meu caderno, de apetite monumental,
tigre para dormir, sossegado na alegria, inspetor do céu noturno,
trabalhador invisível, desordenado, persistente, valente por necessidade,
covarde sem pecado, sonolento por vocação, amável com mulheres,
ativo por padecimento, poeta por maldição e tonto dos tontos.
Pablo Neruda - (Chile, 1904-1973)
De minha parte,
sou ou creio ser de nariz grande, de olhos peque...nos, com poucos cabelos na cabeça,
de abdômen volumoso, de pernas compridas, de pés grandes, amarelo de pele,
generoso nos amores, impossível com cálculos, confuso com as palavras, terno com as mãos,
lento ao andar, de coração inoxidável, adorador das estrelas, marés, terremotos,
admirador de besouros, caminhante das areias, ignorante das instituições,
chileno perpétuo, amigo dos meus amigos, mudo com inimigos,
intrometido entre os pássaros, mal-educado em casa, tímido nos salões,
audaz na solidão, arrependido sem objeto, horrendo administrador, navegante de boca,
curandeiro da tinta, discreto entre animais, afortunado nas nuvens densas,
pesquisador de mercados, obscuro nas bibliotecas, melancólico nas cordilheiras,
incansável nas florestas, lentíssimo nas respostas, ocorrente anos depois,
vulgar durante todo o ano, resplandecente com meu caderno, de apetite monumental,
tigre para dormir, sossegado na alegria, inspetor do céu noturno,
trabalhador invisível, desordenado, persistente, valente por necessidade,
covarde sem pecado, sonolento por vocação, amável com mulheres,
ativo por padecimento, poeta por maldição e tonto dos tontos.
Pablo Neruda - (Chile, 1904-1973)
Meia face de sol - a tarde finda
nos limites do céu e da calçada.
Uma tarde partida, quando ainda
refletida entre cores, desbotada.
Aquarela dispersa - morte linda.
(Colorido de tez avermelhada)
mas o tempo ilusório fez infinda
meia face de sol desfigurada.
Murchas pétalas de horas finge o monte
rente a linha deserta do horizonte
feito rosa pendida... rosa-flores.
Nos limites da sombra projetada
nos contornos da noite aproximada
percebo o tempo farejando as cores.
Majela Colares
O Silêncio da FlorFoi quando as flores não vingaram frutos:
(nos secos ramos, ressecaram tardes)
as folhas murchas despencaram pálidas
se dispersaram contornando rastros
pelos caminhos conspiravam fugas
levando marcas de uma morte lenta,
porque raízes omitiram seiva
para mante-las sempre ao caule, sempre...
mas foi da terra sim, que a morte veio
do chão que a planta ruminava nuvens,
o fio de água, transformado em lodo,
contido pela rigidez da argila.
Foi quando as folhas se acharam adubo:
(nas secas tardes, renasceram ramos)
antigas folhas inundando o caule,
imune seiva, frutos-flores, quando...
Majela Colares
DA POESIA
A poesia é o
carnaval e o funeral da vida,
a dispersão
febril das cinzas,
o aspergir
sutil da consciência,
galáctica e
puntual,
da metrópole
ou da periferia,
a poesia é o
sinal que reluz e ressuscita.
Contida,
panfletária, flama e aço,
é o laço que
prende e solta a asa,
e engole a
paisagem imensa,
asfáltica,
amazônica, essencial,
e sobrevive,e
cresce e intumesce,
pulsando o
imaginário sem tempo,
sonolenta,
ácida e fugidia.
Poesia é o pão
da alma,
é o elo humano
do idílico, do esotérico.
Nela cabe o
mundo, o fungo do cadáver,
a aura febril
do recém-nascido,
a chave
excitante da viagem erótica da palavra e do enigma.
A poesia ara o
campo, reflete a senda e sua origem, semeia.
É um ir e
voltar, sempre, como nuvem,
um escuro
necessário e pesado sobre a luz do dia
ou um raio, um
ritual sobre o desejo esparramado
e incontido
dentro dela.
Irrequieta,
arquiteta das emoções primeiras, das primazias,
confluência
dos encontros e caminhos,
é arma que
brande e tece a rima de novos caminhos,
peita a
hipocrisia, a História e os sistemas.
É heresia a
poesia, concreta, do dia-a-dia sombrio,
exala o sêmen
da criação e o abortar da palavra não dita,
e cinge o nó
que revigora a alma que escreve e ama.
Nela cabe tudo
e extravasa e tudo pulveriza
Nela,
lembrança e o pó do tempo tomam corpo sobre a mesa.
Nada cala um
poema,
serena, a
poesia clama a chama,
incendeia, é
arma que atira e acorda a realidade
esdrúxula,
descontrolada e sem lapso,
ao tempo
engole e é compasso, é colapso.
E a alma do
poeta é grande, elástica,
das divagações
exóticas da sílaba aos rumores
eróticos da
palavra.
A ele, poeta
verdadeiro, não importa o tempo
nem a fantasia
do sucesso,
poesia é
sempre avesso,
nem sempre
verso,
é a
inquietação ante ao ultraje.
Resoluta e
destra,
é santa ou
puta, porém sempre certa,
é a hipocrisia
das sensações,
caudal de
lembranças que o dinheiro não compra
e não acaba,
é a grande
vaga,
que varre a
tentação, dá sobrevida,
e a cada
passo, é liberdade ou ladainha sem fim
para os
conformados.
Poetas, os
casaldáligas, os thiagos, os operários,
provocadores
da construção de um novo tempo,
de um novo
ritmo que todos dancem,
onde liberdade
é ver-se outro no espelho,
ser parte da
paisagem sem ser paisagem,
ter o pé na
alma e no limo,
sem perder a
brancura da viagem,
ou a escureza
da sensação que mostra o caminho da luz que,
se não
clareia, transforma.
(Vicente
Caririin: Alma Assoreada)
sexta-feira, 16 de março de 2012
Amo Minas...
Amo Minas
A de riquezas naturais
Amo Minas
A minha Minas de pessoas especiais ...
Amo Minas
A de histórias originais
Amo Minas
A minha Minas que luta por ideais...
Amo Minas
A de montanhas monumentais
Amo Minas
A minha Minas de belezas reais ...
Amo Minas
A de encantos gerais
Amo Minas
A minha Minas Gerais...
"É onconasci, oncomoro, oncoadoro! Bom demais sô!..."
Amo Minas
A de riquezas naturais
Amo Minas
A minha Minas de pessoas especiais ...
A de histórias originais
Amo Minas
A minha Minas que luta por ideais...
Amo Minas
A de montanhas monumentais
Amo Minas
A minha Minas de belezas reais ...
Amo Minas
A de encantos gerais
Amo Minas
A minha Minas Gerais...
"É onconasci, oncomoro, oncoadoro! Bom demais sô!..."
Mena Barreto
"Olhar passarinhos me ajuda a andar de cabeça erguida " Marcelo Benini in : "O Capim Sobre o Coleiro"
* * *
Às vezes recebia no
quarto um sanhaço E despia-se para o
enleioOlvidava o que tinha de
casca,Preferindo a
brisaO traupídeo, porém, tinha dogmas de
asaE partia.O vento e a noite
encolhiam-na A residuozinho de
gente.
Marcelo Benini in :"O Capim Sobre o Coleiro"
.
quarta-feira, 14 de março de 2012
Dia Nacional
da Poesia
O dia 14 de março foi escolhido em homenagem
ao grande poeta Castro Alves, é o dia do nascimento do escritor baiano famoso
pelos seus versos românticos como os de "Navio Negreiro".
"Poeta, não é somente o que escreve.
É aquele que sente a poesia, se extasia sensível ao achado de uma rima à autenticidade de um verso"
É aquele que sente a poesia, se extasia sensível ao achado de uma rima à autenticidade de um verso"
Cora coralina
Os poemas
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
:Mário Quintana in:Esconderijos do tempo.
terça-feira, 13 de março de 2012
A Chegada da Caixa de Abelhas
Eu mesma pedi, esta caixa de madeiraBranca e quadrada como uma cadeira, pesada demais.
Seria o esquife de um anão
Ou de um bebê quadrado,
Não fosse o rumor que vem de dentro.
Está fechada agora, é perigosa.
Devo zelar por ela a noite inteira
E não posso ir embora.
Não há saída, é impossível ver o que há nela.
Só uma pequena tela, sem janelas.
Devo zelar por ela a noite inteira
E não posso ir embora.
Não há saída, é impossível ver o que há nela.
Só uma pequena tela, sem janelas.
Espio pela fresta.
Tudo escuro, escuro,
Pelo enxame zangado de mãos africanas,
Miúdas, prensadas para exportação,
Negro com negro, escalando com ódio.
Tudo escuro, escuro,
Pelo enxame zangado de mãos africanas,
Miúdas, prensadas para exportação,
Negro com negro, escalando com ódio.
Soltá-las de que jeito?
O zumbido é o que mais me apavora,
As sílabas incompreensíveis.
São como uma turba romana,
Não são nada sozinhas, mas juntas, meu deus!
O zumbido é o que mais me apavora,
As sílabas incompreensíveis.
São como uma turba romana,
Não são nada sozinhas, mas juntas, meu deus!
Ouço ansiosa esse latim furioso.
Não sou um Cesar.
Só encomendei uma caixa de maníacas.
Posso devolver.
Ou deixá-las morrer, sou a dona, não preciso tomar conta.
Não sou um Cesar.
Só encomendei uma caixa de maníacas.
Posso devolver.
Ou deixá-las morrer, sou a dona, não preciso tomar conta.
Imagino se têm fome.
Imagino se me esqueceriam
Se eu abrisse a tampa e me fosse e virasse árvore.
Um laburno, com suas louras colunas
E anáguas de cereja.
Imagino se me esqueceriam
Se eu abrisse a tampa e me fosse e virasse árvore.
Um laburno, com suas louras colunas
E anáguas de cereja.
Podiam muito bem me ignorar
Em meu véu funerário, em meu vestido lunar.
Não sou feita de mel.
O que querem de mim?
Amanhã serei Deus, e vou soltá-las enfim.
Em meu véu funerário, em meu vestido lunar.
Não sou feita de mel.
O que querem de mim?
Amanhã serei Deus, e vou soltá-las enfim.
A caixa é apenas temporária.
SYLVIA PLATH
segunda-feira, 12 de março de 2012
sábado, 10 de março de 2012
Roseando
"Querendo procurar,
nunca não encontra. De repente, quando a gente não espera, o sertão vem. Posso
me esconder de mim? Eu queria e não queria ouvir. Não adianta se dar as costas:
se sonha, já se fez. O sertão vem e volta. Explico: o diabo vige dentro do
homem, os crespos do homem – ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos.
Medo tenho não é de ver morte, mas de ver nascimento. Medo mistério. O senhor
não vê? Vida muito esponjosa. Careço de que o bom seja bom e o ruim ruim, que
dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do
bonito e a alegria longe da tristeza! Quero todos os pastos demarcados... esse
mundo é muito misturado. O sertão é confusão em grande demasiado sossego. Um
feio mundo, exagerado. O chão sem se vestir. Tudo aqui é perdido, tudo aqui é
achado. Eu sem segurança nenhuma, só as dúvidas, e nem soubesse o que tinha de
fazer.
Eu já achava que a vida da gente vai em erros, como um relato sem pés nem cabeça, por falta de sisudez e alegria. Vida devia ser como na sala do teatro, cada um inteiro fazendo com forte gosto seu papel, desempenho. Era o que eu acho, é o que eu achava. Ser dono definitivo de mim, era o que eu queria, queria. Existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver – e essa pauta cada um tem – mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas esse norteado, tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sendo sempre o confuso dessa doideira que é. A gente quer se afastar de si próprio... pra isso é que o muito se fala. O senhor sabe o que é o silêncio? É a gente mesmo, demais. " Guimarães Rosa in: Grande Sertão Veredas
Eu já achava que a vida da gente vai em erros, como um relato sem pés nem cabeça, por falta de sisudez e alegria. Vida devia ser como na sala do teatro, cada um inteiro fazendo com forte gosto seu papel, desempenho. Era o que eu acho, é o que eu achava. Ser dono definitivo de mim, era o que eu queria, queria. Existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver – e essa pauta cada um tem – mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas esse norteado, tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sendo sempre o confuso dessa doideira que é. A gente quer se afastar de si próprio... pra isso é que o muito se fala. O senhor sabe o que é o silêncio? É a gente mesmo, demais. " Guimarães Rosa in: Grande Sertão Veredas
sexta-feira, 9 de março de 2012
quinta-feira, 8 de março de 2012
Clariceando
"Ao sair do edifício, o inesperado me tomou. O que antes fora
apenas chuva na vidraça, abafado de cortina e aconchego, era na rua a tempestade
e a noite. Tudo isso se fizera enquanto eu descera pelo elevador? Dilúvio
carioca, sem refúgio possível, Copacabana com água entrando pelas lojas rasas e
fechadas, águas grossas de lama até o meio da perna, o pé tateando para
encontrar calçadas invisíveis. Até movimento de maré já tinha, onde se juntasse
o bastante de água começava a atuar a secreta influência da Lua: já havia fluxo
e refluxo de maré. E o pior era o temor ancestral gravado na carne: estou sem
abrigo, o mundo me expulsou para o próprio mundo, e eu que só caibo numa casa
nunca mais terei casa na vida, esse vestido ensopado sou eu, os cabelos
escorridos nunca secarão, e sei que não serei dos escolhidos para a Arca, pois
já selecionaram o melhor casal de minha espécie.
Pelas esquinas os carros de motor paralisado, e nem sombra de táxi. E a alegria feroz de vários homens finalmente impossibilitados de voltar para casa. A alegria demoníaca dos homens livres ainda mais ameaçava quem só queria casa própria. Andei sem rumo ruas e ruas, mais me arrastava que andava, parar é que era o perigo. De minha desmedida desolação eu só conseguia que ela fosse disfarçada. Alguém, radiante sob uma marquise, disse: que coragem, hein, dona! Não era coragem, era exatamente o medo. Porque tudo estava paralisado, eu que tenho medo do instante em que tudo pare tinha que andar.
Pelas esquinas os carros de motor paralisado, e nem sombra de táxi. E a alegria feroz de vários homens finalmente impossibilitados de voltar para casa. A alegria demoníaca dos homens livres ainda mais ameaçava quem só queria casa própria. Andei sem rumo ruas e ruas, mais me arrastava que andava, parar é que era o perigo. De minha desmedida desolação eu só conseguia que ela fosse disfarçada. Alguém, radiante sob uma marquise, disse: que coragem, hein, dona! Não era coragem, era exatamente o medo. Porque tudo estava paralisado, eu que tenho medo do instante em que tudo pare tinha que andar.
E eis que nas águas vejo um táxi. Avançava
cuidadosamente, quase centímetro por centímetro, tateando o chão com as rodas.
Como é que eu me apoderaria daquele táxi? Aproximei-me. Não podia me dar ao luxo
de pedir, lembrei-me de todas as vezes em que, por ter tido a doçura de pedir,
não me deram. Contendo o desespero, o que sempre me dá uma aparência de força,
disse ao chofer: "o senhor vai me levar para casa! é de noite! tenho filhos
pequenos que devem estar assustados com minha demora, é de noite, ouviu?!" Para
minha grande surpresa, vai o homem e simplesmente diz que sim. Ainda sem
entender, entrei. O carro mal se movia nas ondas lamacentas, mas movia-se - e
chegaria. Eu só pensava: eu não valho tanto. Daí a pouco já estava pensando: e
eu que não sabia que valia tanto. E daí a pouco era a dona-de-casa de meu táxi,
já tomara posse de direito do que gratuitamente me fora dado, e energicamente
tomava medidas úteis: torcia cabelos e roupas, tirava os sapatos amolecidos,
enxugava o rosto que mais parecia ter chorado. A verdade, sem pudor, é que eu
tinha chorado. Muito pouco, e misturando motivos, mas chorado. Depois de arrumar
minha casa, encostei-me bem confortável no que era meu, e de minha Arca assisti
ao mundo acabar-se.
Uma senhora aproximou-se então do carro. Devagar como
este avançava, ela pôde acompanhá-lo agarrada em aflição ao trinco da porta. E
literalmente me implorava para compartilhar do táxi. Era tarde demais para mim,
e seu itinerário me desviaria de meu caminho. Lembrei-me, porém, de meu
desespero de havia cinco minutos, e resolvi que ela não teria o mesmo. Quando eu
lhe disse que sim, seu tom de imploração imediatamente cessou, substituído por
uma voz extremamente prática: "É, mas espere um pouco, vou até aquela
transversal buscar na casa da costureira o embrulho do vestido que deixei lá
para não molhar". "Estará ela se aproveitando de mim?", indaguei-me na velha
dúvida se devo ou não deixar que se aproveitem de mim. Terminei cedendo. Ela
demorou à vontade. E voltou com um enorme embrulho pousado nas mãos estendidas,
como se até seu próprio corpo pudesse macular o vestido. Instalou-se totalmente,
o que me deixou tímida na minha própria casa.
E começou o meu calvário de anjo - pois a mulher, com sua
voz autoritária, já tinha começado a me chamar de anjo. Não poderia ser menos
comovente o seu caso: aquela era a noite de uma première e, se não fosse eu, o
vestido se estragaria na chuva ou ela se atrasaria e perderia a première. Eu já
tivera as minhas premières, e nem as minhas me haviam comovido. "A senhora não
sabe o milagre que me aconteceu", contou-me com firmeza. "Comecei a rezar na
rua, a rezar ara que Deus me mandasse um anjo que me salvasse, fiz promessa de
não comer quase nada amanhã. E Deus me mandou a senhora." Constrangida,
remexi-me no banco. Eu era um anjo destinado a proteger premières? a ironia
divina me encabulava. Mas a senhora, com toda a força de sua fé prática, e
tratava-se de mulher forte, continuava impositivamente a reconhecer o anjo em
mim, o que só pouquíssimas pessoas até hoje reconheceram, e sempre com a maior
discrição. Tentei sem jeito a leveza de um sarcasmo: "Não me supervalorize, sou
apenas um meio de transporte". Enquanto que a ela nem sequer ocorreu
compreender-me, eu a contragosto percebia que o argumento na verdade não me
isentava: anjos também são meios de transporte. Intimidada, calei-me. Fico muito
impressionada com quem grita comigo: a mulher não gritava, mas claramente
mandava em mim. Impossibilitada de confrontá-la, refugiei-me num doce cinismo:
aquela senhora, que tratava com tanto vigor do próprio êxtase, devia ser mulher
habituada a comprar com dinheiro, e na certa terminaria por agradecer ao anjo
com um cheque, também levando em conta que a chuva já devia ter lavado toda a
minha distinção. Com um pouco mais de confortável cinismo, em silêncio,
declarei-lhe que dinheiro seria um meio tão legítimo como qualquer outro de
agradecer, já que a moeda dela era mesmo moeda. Ou então - diverti-me eu - bem
poderia dar-me em agradecimento o vestido da première, pois o que ela realmente
deveria agradecer não era ter um vestido seco, e sim ter sido atingida pela
graça, isto é, por mim. Dentro de um cinismo cada vez melhor, pensei: "Cada um
tem o anjo que merece, veja que anjo lhe coube: estou cobiçando por pura
curiosidade um vestido que nem sequer vi. Agora quero ver como é que sua alma
vai se arrumar com a idéia de um anjo interessado em roupas". Parece-me que, no
meu orgulho, eu não queria ter sido escolhida para servir de anjo à tolice
ardente de uma senhora.
A verdade é que ser anjo estava começando a me pesar.
Conheço bem esse processo do mundo: chamam-me de bondosa, e pelo menos durante
algum tempo fico atrapalhada para ser ruim. Comecei também a compreender como os
anjos se chateiam: eles servem a tudo. Isso nunca me ocorrera. A menos que eu
fosse um anjo muito embaixo na escala dos anjos. Quem sabe, até, eu era só
aprendiz de anjo. A alegria satisfeitona daquela senhora começava a me deixar
sombria: ela fizera uso exorbitante de mim. Fizera de minha natureza indecisa
uma profissão definida, transformara minha espontaneidade em dever,
acorrentava-me, a mim, que era anjo, o que a essa altura eu já não podia mais
negar, mas anjo livre. Quem sabe, porém, eu só fora mandada ao mundo para aquele
instante de utilidade. Era isso, pois, o que eu valia. No táxi, eu não era um
anjo decaído: era um anjo que caía em si. Caí em mim e fechei a cara. Um pouco
mais e teria dito àquela de quem eu era com tanta revolta o anjo da guarda: faça
o obséquio de descer já e imediatamente deste táxi! Mas fiquei calada,
agüentando o peso de minhas asas cada vez mais contritas pelo seu enorme
embrulho. Ela, a minha protegida, continuava a falar bem de mim, ou melhor, de
minha função. Emburrei. A senhora sentiu e calou-se um pouco desarvorada. Já na
altura de Viveiros de Castro a hostilidade se declarara muda entre
nós.
- Escute, disse-lhe eu de repente, pois minha
espontaneidade é faca de dois gumes também para os outros, o táxi vai antes me
deixar em casa e depois é que segue com a senhora.
- Mas, disse ela surpreendida e em começo de indignação,
depois vou ter que dar uma volta enorme e vou me atrasar! é só um pequeno desvio
para me deixar em casa!
- Pois é, respondi seca. Mas não posso entrar pelo
desvio.
- Eu pago tudo! insultou-me ela com a mesma moeda com que
teria se lembrado de me agradecer.
- Eu é que pago tudo, insultei-a.
Ao saltar do táxi, assim como quem não quer nada, tive o
cuidado de esquecer no banco as minhas asas dobradas. Saltei com a profunda
falta de educação que me tem salvo de abismos angelicais. Livre de asas, com a
grande rabanada de uma cauda invisível e com a altivez que só tenho quando pára
de chover, atravessei como uma rainha os largos umbrais do Edifício Visconde de
Pelotas. "
CLARICE LISPECTOR. Mal-estar de um anjo. In Para Não Esquecer.
quarta-feira, 7 de março de 2012
ANTIPHONA DE NOSSA SENHORA (Salve Regina) - J. J. Emerico Lobo de Mesqui...
Lobo de Mesquita era mulato, filho natural do português José Lobo de Mesquita e de sua escrava Joaquina Emerenciana, tendo nascido na Vila do Príncipe (atual Serro) por volta de 1746. Ali teve sua formação musical e iniciou suas atividades profissionais, como organista e como compositor. Por volta de 1776, transferiu-se para o Arraial do Tejuco (atual Diamantina), que era o centro urbano de maior importância na região, enquanto centro de controle da mineração. Ele já aparece como organista na Matriz de Santo Antônio em fins de 1783 ou início de 1784, passando a tocar na Igreja da Ordem Terceira do Carmo em 1789. Sua atuação certamente incluía todas as obrigações de um Mestre de Capela (ou de Mestre de Música, para utilizar a distinção estabelecida pelo musicólogo Padre Jaime Diniz): compor as obras para as festas contratadas, arregimentar cantores e instrumentistas para a execução da obra, ensaiar, reger (provavelmente do console do órgão, que era seu instrumento) e provavelmente ensinar (preparando jovens para o exercício da profissão de músico). Foi também Alferes do Terão da Infantaria dos Homens Pardos (não se sabe se atuando na banda de música). Tranferiu-se para a Vila Rica, passando a atuar na Matriz de Nossa Senhora do Pilar e na Ordem Terceira do Carmo, em 1798. Dois anos depois, passou o cargo a Francisco Gomes da Rocha e transferiu-se para o Rio de Janeiro, tocando na Igreja da Ordem Terceira do Carmo entre 1801 e 1805, quando faleceu.
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