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sábado, 4 de junho de 2011

O catador

Um homem catava pregos no chão.
Sempre os encontrava deitados de comprido,
ou de lado,
ou de joelhos no chão.
Nunca de ponta.
Assim eles não furam mais - o homem pensava.
Eles não exercem mais a função de pregar.
São patrimônios inúteis da humanidade.
Ganharam o privilégio do abandono.
O homem passava o dia inteiro nessa função de catar
pregos enferrujados.
Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.
Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.
Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.
Garante a soberania de Ser mais do que Ter.

Manoel de Barros In:"Tratado geral das grandezas do ínfimo"

Eu Queria Trazer-te Uns Versos

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim...
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para os ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel.
Trago-te palavras, apenas... e que são escritas
do lado de fora do papel... Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente de puro, ao vento da Poesia...
como uma pobre lanterna que incendiou!

Mário Quintana

"Quando você vai embora de nós
o pronome parte-se ao meio
você diz que só leva o s
e o que adianta?
se comigo sobra o nó
na garganta." Rita Apoena

"Mas de que adianta sair para festa e voltar para casa sempre com o coração vazio. Se um dia voltar para casa com o coração aquecido e com um amor desses que valham à pena, ai sim recomendarei festas."Caio Fernando Abreu

sexta-feira, 3 de junho de 2011


CONDENAÇÃO

Deixe a luz acesa, que eu estou com medo de mim.
Bati a porta errada,
disse a palavra inadequada,
queimei o filme,
rasguei o cetim.
Hoje eu tropecei na própria sombra,
errei a mira,
quebrei o cristal.
Se alguém me disser que não faz mal,
quem sabe eu me convença
e anule de vez essa sentença
que determina minha pena capital.

Flora Figueiredo In ‘Chão de Vento’

Assombros

Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.
Fora, não se dão conta os desatentos.
Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.
Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.
Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.

Affonso Romano de Sant'Anna In: Lado Esquerdo do Meu Peito"
"Aprendi a fazer minha alma vibrar e sei que, enquanto isso, no mais profundo do pròprio ser, pode-se permanecer vigilante e frio, apenas observando o espetàculo que a si mesmo se proporcionou." Clarice Lispector

"Procurei um meio de me derramar um pouco, antes que transbordasse inteiramente."
Clarice Lispector

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Quando eu morrer não chores mais por mim
Do que hás de ouvir triste sino a dobrar
Dizendo ao mundo que eu fugi enfim
Do mundo vil pra com os vermes morar.
E nem relembres, se estes versos leres,
A mão que os escreveu, pois te amo tanto
Que prefiro ver de mim te esqueceres
Do que o lembrar-me te levar ao pranto.
Se leres estas linhas, eu proclamo,
Quando eu, talvez, ao pó tenha voltado,
Nem tentes relembrar como me chamo:
Que fique o amor, como a vida, acabado.
Para que o sábio, olhando a tua dor,
Do amor não ria, depois que eu me for

William Shakespeare

Quintanares


"Um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente ... e não a gente a ele!"



Mário Quintana
Porquinho da Índia

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração eu tinha
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos, mais limpinhos,
Ele não se importava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...
- O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.
Manuel Bandeira

" eu me fui, eu me sou, eu me serei em cada um dos girassóis do reino a ser feito. E as coisas terão que ser claras`..."Caio Fernando Abreu

eu assinei e vc?

Abaixo-assinado CÓDIGO FLORESTAL - DESTRUIÇÃO DO BRASIL

quarta-feira, 1 de junho de 2011


“Somos assim: sonhamos o voo mas tememos a altura . Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o voo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso o que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.

É um engano pensar que os homens seriam livres se pudessem, que eles não são livres porque um estranho os engaiolou, que eles voariam se as portas estivessem abertas. A verdade é oposto. Não há carcereiros. Os homens preferem as gaiolas aos voos. São eles mesmos que constroem as gaiolas em que se aprisionam...” Rubens Alves