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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010



"Bons tempos aqueles, pensei. Acendi um cigarro. E não tomei nenhuma dessas atitudes, dramáticas como se em algum canto houvesse sempre uma câmera cinematográfica à minha espreita. Ou Deus. Sem juiz nem platéia, sem close nem zoom, fiquei ali parado no começo da tarde escaldante de fevereiro, olhando o telefone que acabara e desligar. Nem sequer fiz o sinal da cruz ou levantei os olhos para o céu. O mínimo, suponho, que um sujeito tem a obrigação de fazer nesses casos, mesmo sem nenhuma fé, como se reagisse a uma espécie de reflexo condicionado místico."
Caio Fernando Abre In: Onde andará Dulce Veiga
"








Imagem capturada no Google

"Não ficou nenhuma prova - nada te posso garantir - eu sou a única prova de mim." Clarice Lispector In: Para não esquecer.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010



"Sabe, às vezes, eu me lembro de coisas assim, de muitas coisas, como essa da menina - como se houvesse uma parte de mim que não envelheceu e que guardou. Guardou tudo, até o príncipe que um dia não veio mais. Não, não foi um dia que ele não veio mais, foram muitos dias, em muitos dias ele não veio mais, a água do mar salgava a nossa boca, o sol queimava a minha pele, eu tinha impressão de ser de couro, um couro ressecado, mal curtido. (..) Não sei, não sei até hoje se o príncipe era um deles. Eu não podia saber, ele não falava. E, depois, ele não veio mais. Eu dava um cavalo branco para ele, uma espada, dava um castelo e bruxas para ele matar, dava todas as coisas e mais as que ele pedisse, fazia com a areia, com o sal, com as folhas dos coqueiros, com as cascas dos cocos, até com a minha carne eu construia um cavalo branco para aquele príncipe. Mas ele não queria, acho que ele não queria, e eu não tive tempo de dizer que quando a gente precisa que alguém fique a gente constrói qualquer coisa, até um castelo."
Caio Fernando Abreu

Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.

Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.

Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!

CECÍLIA MEIRELES

“(...) Hoje estou melancólica e suspirosa, choveu muito, a água invadiu este porão de lembranças, bóiam na enxurrada a caminho do rio. Deixo que naveguem, pois não as perderei. O rio é dentro de mim”.
Adélia Prado

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

"E me dá saudade irracional de você. Uma vontade de chegar perto, de só chegar perto, te olhar sem dizer nada, talvez recitar livros, quem sabe só olhar estrelas… dizer que te considero – pode ser por mais um mês, por mais um ano, ou quem sabe por uma vida – e que hoje, só por hoje ou a partir de hoje (de ontem, de sempre e de nunca), é sincero"
Caio Fernando Abreu
Devolve

Devolve toda a tranqüilidade
Toda a felicidade
Que eu te dei e que perdi

Devolve todos os sonhos loucos
Que eu construí aos poucos
E te ofereci

Devolve, eu peço, por favor
Aquele imenso amor
Que nos teus braços esqueci

Devolve, que eu te devolvo ainda
Esta saudade infinda
Que eu tenho de ti.

Mario Lago

A vida é um incêndio: nela
dançamos, salamandras mágicas
Que importa restarem cinzas
se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam,
cantemos a canção das chamas!

Cantemos a canção da vida,
na própria luz consumida...

Mario Quintana

domingo, 5 de dezembro de 2010

Clariceando

“Através de meus graves erros — que um dia eu talvez os possa mencionar sem me vangloriar deles — é que cheguei a poder amar. Até esta glorificação: eu amo o Nada. A consciência de minha permanente queda me leva ao amor do Nada. E desta queda é que começo a fazer minha vida. Com pedras ruins levanto o horror, e com horror eu amo. Não sei o que fazer de mim, já nascida, senão isto: Tu, Deus, que eu amo como quem cai no nada.”Clarice Lispector In: Aprendendo a viver


Vou mostrando como sou
E vou sendo como posso
Jogando meu corpo no mundo
Andando por todos os cantos
E pela lei natural dos encontros
Eu deixo e recebo um tanto
E passo aos olhos nus
Ou vestidos de lunetas
Passado, presente
Participo sendo
O mistério do planeta

O tríplice mistério do stop
Que eu passo como sendo ele
No que fica em cada um
No que sigo o meu caminho
E no ar que fez, que assistiu,
Abra um parêntese, não se esqueça
Que independente disso
Eu não passo de um malandro
De um moleque do Brasil
Que peço e dou esmolas
Mas ando e penso sempre
Com mais de um
Por isso ninguém vê minha sacola

sábado, 4 de dezembro de 2010


- Vocês se amaram?
- Ela me amou. Foi a única criatura que...- Fez um gesto. – Enfim não tem importância.
Raquel tirou-lhe o cigarro, tragou e depois devolveu-o
- Eu gostei de você, Ricardo.
- E eu te amei. E te amo ainda. Percebe agora a diferença?

VENHA VER O PÔR DO SOL - conto de Lygia Fagundes Telles

"Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja tão somente andar ao lado de deus. Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo. O essencial faz a vida valer a pena. Basta o essencial!"
Rubem Alves

"Conto o que fui e vi, no levantar do dia. Auroras. ..."
Guimaráes Rosa In: Grande Sertão Veredas

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010


"Lutei toda a minha vida contra a tendência ao devaneio, sempre sem jamais deixar que ele me levasse até as últimas águas. Mas o esforço de nadar contra a doce corrente tira parte de minha força vital. E, se lutando contra o devaneio, ganho no domínio da ação, perco interiormente uma coisa muito suave de se ser e que nada substitui. Mas um dia ainda hei de ir, sem me importar para onde o ir me levará."
Clarice Lispector In: A descoberta do mundo


Imagem capturada no google

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010


" eu não digo que eu tenha muito, mas tenho ainda a procura intensa e uma esperança violenta."
Clarice Lispector In:
A bela e a fera
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"Me dá notícias. Se encontrar um daqueles telefones, ligo qualquer noite (...) Sinto saudade, ando meio só. Um beijo, cem beijos"
Caio Fernando Abre
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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010


"Eu gostaria de ir embora para uma cidade qualquer, bem longe daqui, onde ninguém me conhecesse, onde não me tratassem com consideração apenas por eu ser “o filho de fulano” ou “o neto de beltrano”. Onde eu pudesse experimentar por mim mesmo as minhas asas para descobrir, enfim, se elas são realmente fortes como imagino. E se não forem, mesmo que quebrassem ao primeiro vôo, mesmo que após um certo tempo eu voltasse derrotado, ferido, humilhado - mesmo assim restaria o consolo de ter descoberto que valho o que sou."
Caio Fernando Abreu In: limite branco

segunda-feira, 29 de novembro de 2010


"De que são feitos os dias?
De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças"
Cecília Meireles

domingo, 28 de novembro de 2010

"Estou dormindo. E embora pareça contradição, suavemente o prazer de estar me acorda num sobressalto também suave. Estou acordada e ainda sinto gosto daquela zona rural onde subsolarmente eu espalhava as minhas raízes, os tentáculos de um sonho."
Clarice Lispector

"... Já não sabia o que era sentir falta de alguém,
já não sabia o que era querer ver um rosto
e não conseguir respirar por causa disso,
sabia como era sentir,
mas não sabia o que sentia de fato."

José Luis Peixoto