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sábado, 17 de maio de 2014


Toma o amor guardado entre as conchas da minha mão. Dentro delas ouvi as ondas quebrando-se em pedras e o espetáculo de um pequeno musgo nascido à beira de um raio de sol. Dentro delas, ouvi a terra aninhando sementes e plantas entrelaçando a ponta de suas raízes. Finas raízes tentando sustentar o mundo sob as placas de cimento. As placas de cimento, de onde germinam as casas e crescem as pessoas, entrelaçando a ponta de seus braços e o mais fundo de seus corpos pela noite escura. Dentro delas, ouvi o mundo inteiro tentando ser par... e ouvi a ponta de tuas asas tocando minhas costas nuas, teu instrumento de cordas e suspiros profundos. 

Rita Apoena

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Bem no fundo do sonho estão os sonhos. A cada
Noite quero perder-me nas águas obscuras
Que lavam o dia, mas sob essas puras
Águas que nos concedem o penúltimo Nada
Pulsa na hora cinza o obsceno portento.
Pode ser um espelho com meu rosto distinto,
Pode ser a crescente prisão de um labirinto
Ou um jardim. O pesadelo sempre atento.
Seu horror não é deste mundo. Causa inominada
Alcança-me desde ontens de mito e de neblina;
A imagem detestada perdura na retina
A infama a vigília como a sombra infamada.
Por que brota de mim, quando o corpo repousa
E a alma fica só, esta insensata rosa?

Jorge Luis Borges

sexta-feira, 2 de maio de 2014


 PRECE

Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade....

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode ergue-la ainda.

Dá o sopro, a aragem - ou desgraça ou ânsia-
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistaremos a Distância -
Do mar ou outra, mas que seja nossa!

Fernando Pessoa in 'Mensagem'

Foto de PoetaManoelDeBarros.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Trêmula gota de orvalho
Presa na teia de aranha,
Rebrilhando como estrela.

Helena Kolody
Todo amanhã se cria num ontem, através de um hoje.
Temos de saber o que fomos, para saber o que seremos.

 Paulo Freire
CHEGARAM AS ESTRELAS

As estrelas chegaram úmidas
E suas frias pétalas pousaram
No meu rosto seco.
As estrelas chegaram trêmulas....
Pareciam flores que o vento esfolhara,
Da noturna árvore.

Murado e exausto,
Que consolo encontro nas estrelas
Que chegaram de repente!
Falaram-me de suas viagens,
Das regiões nuas que atravessaram,
Das fontes que cantam pelos espaços,
Das vozes que se ascendem em caminhos nunca vistos,
Na figura de Aglaia adormecida no céu,
E no sorriso de infância que na sua face flutua.
As estrelas chegaram loucas dos seus infinitos silêncios.
E falavam incessantemente.
Foi o orvalho de suas asas
Que molhou meus olhos!

 Augusto Frederico Schmidt

domingo, 20 de abril de 2014

“Se você não consegue entender o meu silêncio de nada irá adiantar as palavras, pois é no silêncio das minhas palavras que estão todos os meus maiores sentimentos.”

Oscar Wilde
"Que venham as cores, a poesia, a leveza e a liberdade dos fins das tardes de verão."

 Yohana Sanfer
"O menino tinha no olhar um silêncio de chão
e na sua voz uma candura de fontes."

|Manoel de Barros - Menino do Mato|
"O menino tinha no olhar um silêncio de chão
e na sua voz uma candura de fontes."

 Manoel de Barros in: Menino do Mato

sábado, 19 de abril de 2014

"Desmediocrize sua vida. Procure seus "desaparecidos", resgate afetos. Aprenda com quem tiver algo a e...nsinar, e ensine algo àqueles que estão engessados em suas teses de certo e errado. Troque experiências, troque risadas, troque carícias. Não é preciso chegar num momento-limite para se dar conta disso. O enfrentamento das pequenas mortes que nos acontecem em vida já é o empurrão necessário. Morremos um pouco todos os dias, e todos os dias devemos procurar um final bonito antes de partir. " Martha Medeiros

Dia de índio? DIA DE LUTA!


"Quem me dera ao menos uma vez
Ter de volta todo o ouro que entreguei a quem
Conseguiu me convencer que era prova de amizade
Se alguém levasse embora até o que eu não tinha"...

- Legião Urbana

Foto: Morre o escritor Gabriel García Márquez - Charge Opera Mundi"É necessário abrir os olhos e perceber que as coisas boas estão dentro de nós, onde os sentimentos não precisam de motivos nem os desejos de razão. O importante é aproveitar o momento e aprender sua duração, pois a vida está nos olhos de quem sabe ver" Gabriel Garcia Marquez

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Foto: Lua de São Jorge, lua soberana...Lua de são Jorge, lua soberana...
Foto de Momentos de Sabedoria.
Mesmo que seja Domingo, dia internacional da preguiça! hehehehehe

Bom dia!!!!!
“Se não for hoje, um dia será. Algumas coisas, por mais impossíveis e malucas que pareçam, a gente sabe, bem no fundo, que foram feitas para um dia dar certo.”

Caio Fernando Abreu
Em uma tarde de Outono

Em frente ao mar. Escancaro as janelas
Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto.
Outono... Rodopiando, as folhas amarelas
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto......

Por que, belo navio, ao clarão das estrelas,
Visitaste este mar inabitado e morto,
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto?

A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos
A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos...
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!

E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste,
E contemplo o lugar por onde te sumiste,
Banhado no clarão nascente do arrebol...

Olavo Bilac, in "Poesias"

sábado, 5 de abril de 2014

"Se uma notícia ruim me atravessar não me prenderei a ela. Hoje preciso ver além da chuva, hoje preciso sentir além do frio, só assim não me recolherei. Recomponho a dor de me perder para o acaso, isto que toma de surpresa pelo caminho e desmorona as esperanças. Agora adio a felicidade sem pressa de possuí-la, para quer ter nas mãos algo que pesa bem mais do que alivia? Esqueço o nome do filho que ...não tive, lembro das viagens que fiquei por fazer, me divirto pensando nas noites que não dancei. Meu corpo corrompe com o trato de irmos até o fim, não envelheceremos só para não perder a memória. Começo a morrer para a vida ser mais intensa. Se duvidarmos do amanhã, o hoje não poupará na plenitude. Escrevo minha história para não publicá-la, quero ser uma carta que ficou por ser enviada."
Cah Morandi

Festa das Lanternas!
Os ipês estão luzindo
De globos cor-de-ouro.
(Helena Kolody)

sexta-feira, 28 de março de 2014

"Adoro reticências...  Aqueles três pontos intermitentes que insistem em dizer que nada esta fechado, que nada acabou, que algo sempre esta por vir!"  Nilson Furtado




sábado, 22 de março de 2014

'Outono'
A manhã de Outono amarelou a janela
como se em vez de minha, fosse dela.
Um céu azul insistente...

veio compor a pintura
por entre galhos de ipê.
Agora, só faltava você
pra completar a cena na moldura.


 Flora Figueiredo  in: 'O Trem que Traz a Noite'
Agora, ó José
É teu destino, ó José,
a esta hora da tarde,
se encostar na parede,
as mãos para trás.
Teu paletó abotoado
de outro frio te guarda,
enfeita com três botões
tua paciência dura.
A mulher que tens, tão histérica,
tão histórica, desanima.
Mas, ó José, o que fazes?
Passeias no quarteirão
o teu passeio maneiro
e olhas assim e pensas,
o modo de olhar tão pálido.
Por improvável não conta
O que tu sentes, José?
O que te salva da vida
é a vida mesma, ó José,
e o que sobre ela está escrito
a rogo de tua fé:
“No meio do caminho tinha uma pedra”
“Tu és pedra e sobre esta pedra”.
A pedra, ó José, a pedra.
Resiste, ó José. Deita, José,
Dorme com tua mulher,
gira a aldraba de ferro pesadíssima.
O reino do céu é semelhante a um homem
como você, José.


Adelia Prado

domingo, 16 de março de 2014

"Era uma flor tão pequenina
Tão delicada nas suas extremidades
Que quando ele arrancou com dó
Pediu que eu a colocasse no peito esquerdo
Porque ela ainda respirava...
Não sei ao certo qual coraçãozinho batia mais forte,
Mas ela dormiu entre nós
Enroscados que estivemos e
Beijados por aquele beija-flor."

Marla de Queiroz

sábado, 15 de março de 2014

De Que São Feitos os Dias?

De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
...
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças...


Cecilia Meireles

"Então o sol penetrou toda a casa. Se eu quiser dormir até mais tarde, terei que fechar as janelas, as portas, as cortinas, eu que passei quase a noite inteira acordada. Faz muito calor lá fora, faz muito frio aqui dentro e minhas palavras estão inquietas enquanto olho para o teto sem caneta, sem papel, sem disposição. Existe uma solidão irremediável no pulso de um poeta. E essa casa não é minha. Não sei se sofro, mas minha cara é de choro contido. O que fizeram comigo enquanto eu tentava dormir, se eu pensava que havia alguma paz no sono? Estou confusa e queria dizer coisas inconvenientes, mas não posso.

Que cansaço vem do não poder dizer o que se quer."

Marla de Queiroz

sábado, 8 de março de 2014

Ladainha

 
Era uma vez uma mulher
 que via um futuro grandioso
para cada homem que a tocava
um dia
 ela se tocou...
Eu pensava que o amor
 me faria uma rainha
e quando você chegasse
não seria mais sozinha.
 Você chega da gandaia
só pensando numazinha
seu amor é pouca palha
para minha fogueirinha.
 O que você jogou fora
é para poucos
 o meu mal foi jogar pérolas aos porcos.
Eu não sou da sua laia
não quero sua ladainha
pra ser mal acompanhada
 prefiro ficar na minha.

Alice Ruiz

Mural

 
Recolhe do ninho os ovos
a mulher nem jovem nem velha,
em estado de perfeito uso.
Não vem do sol indeciso a claridade expandindo-se,
 é dela que nasce a luz de natureza velada,
é seu próprio gosto em
Ter uma família,
amar a aprazível rotina.
 Ela não sabe que sabe,
 a rotina perfeita é Deus:
 as galinhas porão seus ovos,
 ela porá a sua saia,
a árvores a seu tempo dará suas flores rosadas.
A mulher não sabe que reza:
 que nada mude, Senhor.

Adélia Prado

  Drumundana

e agora Maria?

o amor acabou
a filha casou
o filho mudou
teu homem foi pra vida
que tudo cria
a fantasia
que você sonhou
apagou
à luz do dia

e agora maria?
vai com as outras
vai viver
com a hipocondria
Alice Ruiz 

Pagu


quarta-feira, 5 de março de 2014

"Gosto das coisas de dentro....
  O que está por fora ,
muda a cada estação....
A essência, não."

Clarissa Corrêa "

terça-feira, 4 de março de 2014

"(...) Até parece que guardo
/ num baú de passados/
 uma antiga paixão/
 (...) Até parece que guardo/
num baú de sentimentos/
 uma viva afetação/
 (...)Até parece que guardo/
 num baú de resguardos/
resíduos de reputação/ (...)
Até parece que guardo/
 num baú de retratos/
 a dose mais forte de minha ilusão."
 (Germano Xavier
"A minha intensidade não é uma escolha, não é qualidade ...nem defeito, é uma característica. A minha intensidade não pode ser detida, mas canalizada. Eu posso amar com a profundeza do absurdo sem sufocar o Outro. Eu posso rejeitar com todo o meu ser sem ferir. Eu posso estar totalmente junto sem tentar controlar, me apropriar, invadir. Eu posso exercer a minha intensidade de maneira assertiva quando identifico que ela é apenas minha maneira de sentir. Ela pode assustar, ela pode atrair, mas tenho o cuidado de me deixar esparramar e ser penetrada com delicadeza. Pois a minha intensidade pode ter ardência com leveza. Eu não preciso negligenciá-la se ela respeita espaços que não são meus. Eu não preciso tentar abafa-la se a uso para criar Belezas ou entrar em contato com o que quer que seja. A minha intensidade quando é um problema meu, vira solução. Então assumo as consequências de cada pulsação intensa do meu coração."                  Marla de Queiroz

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014


 (Às vezes),
Somos frágeis, falíveis, perecíveis. Somos carentes, mortais e disponíveis. Somos o desânimo dessa tristeza sem rosto. Somos um pedido de socorro em silêncio. Somos tão humanos, tão passíveis de erros, vulneráveis e solitários caminhando a esmo. E nos sentimos tantas vezes tão menores do que o nosso real tamanho. E, na nossa finitude, a dor consegue passar a única sensação de eternidade dentro do Tempo flácido que, impotentes, vemos definhando.
Somos o nó preso na garganta, alguma falta de fé, somos uma vaga lembrança daquilo que a gente quer. Somos a voz embargada contida no choro. Somos o olhar assustado e a vontade do grito.
Mas não é isto que está escrito.
Somos humanos. E corajosos por superar nossas fraquezas. Somos a falta que nos move, a busca pela delicadeza. Somos a vontade profunda que a angústia não tenha o peso de nos levar à insanidade. Somos a necessidade de sentir alegria e virar do avesso a saudade. Somos uma luz que brilha e transmuta a agonia. Somos o instinto de vida que guia nossos passos. Somos a cura contida num abraço. Somos a labuta diária pela imortalidade. Somos nossos sonhos crescentes, justos e realizáveis. Somos o vazio que amplia o horizonte da sanidade. Somos o mistério, dádiva divina e nenhuma certeza. Somos a base que construímos e os alicerces que nos sustentam. Somos a lembrança acesa de que tudo é transitório, mudança. Somos quem quisermos ser: desejo que a força impere e que nada desbote nossa esperança.
Marla de Queiroz