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quinta-feira, 17 de abril de 2014

Em uma tarde de Outono

Em frente ao mar. Escancaro as janelas
Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto.
Outono... Rodopiando, as folhas amarelas
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto......

Por que, belo navio, ao clarão das estrelas,
Visitaste este mar inabitado e morto,
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto?

A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos
A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos...
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!

E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste,
E contemplo o lugar por onde te sumiste,
Banhado no clarão nascente do arrebol...

Olavo Bilac, in "Poesias"

sábado, 5 de abril de 2014

"Se uma notícia ruim me atravessar não me prenderei a ela. Hoje preciso ver além da chuva, hoje preciso sentir além do frio, só assim não me recolherei. Recomponho a dor de me perder para o acaso, isto que toma de surpresa pelo caminho e desmorona as esperanças. Agora adio a felicidade sem pressa de possuí-la, para quer ter nas mãos algo que pesa bem mais do que alivia? Esqueço o nome do filho que ...não tive, lembro das viagens que fiquei por fazer, me divirto pensando nas noites que não dancei. Meu corpo corrompe com o trato de irmos até o fim, não envelheceremos só para não perder a memória. Começo a morrer para a vida ser mais intensa. Se duvidarmos do amanhã, o hoje não poupará na plenitude. Escrevo minha história para não publicá-la, quero ser uma carta que ficou por ser enviada."
Cah Morandi

Festa das Lanternas!
Os ipês estão luzindo
De globos cor-de-ouro.
(Helena Kolody)

sexta-feira, 28 de março de 2014

"Adoro reticências...  Aqueles três pontos intermitentes que insistem em dizer que nada esta fechado, que nada acabou, que algo sempre esta por vir!"  Nilson Furtado




sábado, 22 de março de 2014

'Outono'
A manhã de Outono amarelou a janela
como se em vez de minha, fosse dela.
Um céu azul insistente...

veio compor a pintura
por entre galhos de ipê.
Agora, só faltava você
pra completar a cena na moldura.


 Flora Figueiredo  in: 'O Trem que Traz a Noite'
Agora, ó José
É teu destino, ó José,
a esta hora da tarde,
se encostar na parede,
as mãos para trás.
Teu paletó abotoado
de outro frio te guarda,
enfeita com três botões
tua paciência dura.
A mulher que tens, tão histérica,
tão histórica, desanima.
Mas, ó José, o que fazes?
Passeias no quarteirão
o teu passeio maneiro
e olhas assim e pensas,
o modo de olhar tão pálido.
Por improvável não conta
O que tu sentes, José?
O que te salva da vida
é a vida mesma, ó José,
e o que sobre ela está escrito
a rogo de tua fé:
“No meio do caminho tinha uma pedra”
“Tu és pedra e sobre esta pedra”.
A pedra, ó José, a pedra.
Resiste, ó José. Deita, José,
Dorme com tua mulher,
gira a aldraba de ferro pesadíssima.
O reino do céu é semelhante a um homem
como você, José.


Adelia Prado

domingo, 16 de março de 2014

"Era uma flor tão pequenina
Tão delicada nas suas extremidades
Que quando ele arrancou com dó
Pediu que eu a colocasse no peito esquerdo
Porque ela ainda respirava...
Não sei ao certo qual coraçãozinho batia mais forte,
Mas ela dormiu entre nós
Enroscados que estivemos e
Beijados por aquele beija-flor."

Marla de Queiroz

sábado, 15 de março de 2014

De Que São Feitos os Dias?

De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
...
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças...


Cecilia Meireles

"Então o sol penetrou toda a casa. Se eu quiser dormir até mais tarde, terei que fechar as janelas, as portas, as cortinas, eu que passei quase a noite inteira acordada. Faz muito calor lá fora, faz muito frio aqui dentro e minhas palavras estão inquietas enquanto olho para o teto sem caneta, sem papel, sem disposição. Existe uma solidão irremediável no pulso de um poeta. E essa casa não é minha. Não sei se sofro, mas minha cara é de choro contido. O que fizeram comigo enquanto eu tentava dormir, se eu pensava que havia alguma paz no sono? Estou confusa e queria dizer coisas inconvenientes, mas não posso.

Que cansaço vem do não poder dizer o que se quer."

Marla de Queiroz

sábado, 8 de março de 2014

Ladainha

 
Era uma vez uma mulher
 que via um futuro grandioso
para cada homem que a tocava
um dia
 ela se tocou...
Eu pensava que o amor
 me faria uma rainha
e quando você chegasse
não seria mais sozinha.
 Você chega da gandaia
só pensando numazinha
seu amor é pouca palha
para minha fogueirinha.
 O que você jogou fora
é para poucos
 o meu mal foi jogar pérolas aos porcos.
Eu não sou da sua laia
não quero sua ladainha
pra ser mal acompanhada
 prefiro ficar na minha.

Alice Ruiz

Mural

 
Recolhe do ninho os ovos
a mulher nem jovem nem velha,
em estado de perfeito uso.
Não vem do sol indeciso a claridade expandindo-se,
 é dela que nasce a luz de natureza velada,
é seu próprio gosto em
Ter uma família,
amar a aprazível rotina.
 Ela não sabe que sabe,
 a rotina perfeita é Deus:
 as galinhas porão seus ovos,
 ela porá a sua saia,
a árvores a seu tempo dará suas flores rosadas.
A mulher não sabe que reza:
 que nada mude, Senhor.

Adélia Prado

  Drumundana

e agora Maria?

o amor acabou
a filha casou
o filho mudou
teu homem foi pra vida
que tudo cria
a fantasia
que você sonhou
apagou
à luz do dia

e agora maria?
vai com as outras
vai viver
com a hipocondria
Alice Ruiz 

Pagu


quarta-feira, 5 de março de 2014

"Gosto das coisas de dentro....
  O que está por fora ,
muda a cada estação....
A essência, não."

Clarissa Corrêa "

terça-feira, 4 de março de 2014

"(...) Até parece que guardo
/ num baú de passados/
 uma antiga paixão/
 (...) Até parece que guardo/
num baú de sentimentos/
 uma viva afetação/
 (...)Até parece que guardo/
 num baú de resguardos/
resíduos de reputação/ (...)
Até parece que guardo/
 num baú de retratos/
 a dose mais forte de minha ilusão."
 (Germano Xavier
"A minha intensidade não é uma escolha, não é qualidade ...nem defeito, é uma característica. A minha intensidade não pode ser detida, mas canalizada. Eu posso amar com a profundeza do absurdo sem sufocar o Outro. Eu posso rejeitar com todo o meu ser sem ferir. Eu posso estar totalmente junto sem tentar controlar, me apropriar, invadir. Eu posso exercer a minha intensidade de maneira assertiva quando identifico que ela é apenas minha maneira de sentir. Ela pode assustar, ela pode atrair, mas tenho o cuidado de me deixar esparramar e ser penetrada com delicadeza. Pois a minha intensidade pode ter ardência com leveza. Eu não preciso negligenciá-la se ela respeita espaços que não são meus. Eu não preciso tentar abafa-la se a uso para criar Belezas ou entrar em contato com o que quer que seja. A minha intensidade quando é um problema meu, vira solução. Então assumo as consequências de cada pulsação intensa do meu coração."                  Marla de Queiroz

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014


 (Às vezes),
Somos frágeis, falíveis, perecíveis. Somos carentes, mortais e disponíveis. Somos o desânimo dessa tristeza sem rosto. Somos um pedido de socorro em silêncio. Somos tão humanos, tão passíveis de erros, vulneráveis e solitários caminhando a esmo. E nos sentimos tantas vezes tão menores do que o nosso real tamanho. E, na nossa finitude, a dor consegue passar a única sensação de eternidade dentro do Tempo flácido que, impotentes, vemos definhando.
Somos o nó preso na garganta, alguma falta de fé, somos uma vaga lembrança daquilo que a gente quer. Somos a voz embargada contida no choro. Somos o olhar assustado e a vontade do grito.
Mas não é isto que está escrito.
Somos humanos. E corajosos por superar nossas fraquezas. Somos a falta que nos move, a busca pela delicadeza. Somos a vontade profunda que a angústia não tenha o peso de nos levar à insanidade. Somos a necessidade de sentir alegria e virar do avesso a saudade. Somos uma luz que brilha e transmuta a agonia. Somos o instinto de vida que guia nossos passos. Somos a cura contida num abraço. Somos a labuta diária pela imortalidade. Somos nossos sonhos crescentes, justos e realizáveis. Somos o vazio que amplia o horizonte da sanidade. Somos o mistério, dádiva divina e nenhuma certeza. Somos a base que construímos e os alicerces que nos sustentam. Somos a lembrança acesa de que tudo é transitório, mudança. Somos quem quisermos ser: desejo que a força impere e que nada desbote nossa esperança.
Marla de Queiroz

sábado, 22 de fevereiro de 2014

“estes dias”

queimam-me
os dias
dos outros.
rego-me, reinvento o
mundo.
falho.
na minha janela
de ferrugem tórrida
os passarinhos
ainda
fazem amor.

Ondjaki

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014


"Um dia você entende que o tempo não é inimigo. E que ele é o nosso maior mestre. Que tudo vem na hora que deve vir. Que não adianta espernear nem se esconder da vida. Que a fuga não é a melhor saída. E que no fim das contas a gente sempre acaba agradecendo tudo que passou. Porque o tempo (ah, o tempo!) está sempre ao nosso lado para nos mostrar o que realmente vale a pena."
Clarissa Corrêa



 Que pode ser sempre melhor.
Que a gente amanheça SOL, ao invés de só.
Que façamos novos laços, ao invés de nós.
E que ao acordar, penduremos amor, na porta
de casa.
E do coração."
(Monalisa Macêdo)
"Eu vou escrevendo a minha história. Ora com lápis clarinho quase invisível, que são os momentos silenciosos, onde os rabiscos saem tímidos, quase sem querer. Ora com caneta preta, vermelha, forte, grifando bem as palavras para eu não me esquecer."
(Ita Portugal)


Alimento a idéia fixa de desfrutar coisas que ainda nem sei e o sonho de habitar em lugares onde nunca estive.

Tenho vontades para suprir e um monte de janelas para abrir. Sem saída, aceito minha condição restrita, mas faço ser intenso tudo que já conheci.

Posso até ser limitada do lado de fora, mas as minhas recordações não me deixam mentir: aqui dentro o espaço é imenso."

Fernanda Gaona
Alimento a idéia fixa de desfrutar coisas que ainda nem sei e o sonho de habitar em lugares onde nunca estive.Alimento a idéia fixa de desfrutar coisas que ainda nem sei e o sonho de habitar em lugares onde nunca estive.Alimento a idéia fixa de desfrutar coisas que ainda nem sei e o sonho de habitar em lugares onde nunca estive"E que o sol amanhã brilhe mais forte. 
Que o céu amanheça azul-felicidade enfeitado 

de nuvens cor de algodão. 

Que o amanhã seja melhor que ontem e que, 

a vida, abra um sorriso sincero, pra quem ainda 

... Acredita. 

Acredita sempre. 

Que a gente amanheça SOL, ao invés de só. 

Que façamos novos laços, ao invés de nós. 

E que ao acordar, penduremos amor, na porta de casa. 

E do coração.'' 

(Monalisa Macêdo)

domingo, 16 de fevereiro de 2014

"Minha teoria é simples. Meu sentir é exagerado. Me jogo, me lasco, me entrego, me esfolo inteira. Melhor do que viver pela metade. Amar pela metade. Acreditar pela metade. Pra tombo há remédio, há refazer. Pra sonho desperdiçado, não.
Por isso gasto meus sorrisos, não passo vontades, não guardo choros, não contenho gritos. Por isso insisto em desafiar o tempo e as pedras do caminho. No meio do furacão, saio devastada, mas sobrevivo à tempestade. E não paro, e não me basto. (...) Sou daquelas que sonham alto, que acreditam mesmo que o vento não esteja a favor, que buscam mesmo enxergando longe demais o ponto a ser alcançado, que tentam e não desistem até que a linha de chegada revele suas surpresas. Não vejo a vida com lentes cor de arco-íris. Na minha bagagem não cabem promessas nem utopias, mas uma tendência desenfreada à esperança. O que você chama de otimismo eu prefiro chamar de confiança e de fé. De um querer infinito. De uma coragem pulsante da qual me visto pra poder viver. Já fui acometida pelo cansaço que desencoraja os sonhadores. Mas sou movida por uma teimosia e uma vontade de realizar que me põem de pé em todas as manhãs. As inseguranças podem até me fazer visita, mas não tem morada aqui. Elas não prendem meus passos". Solange Maia

Alimento a idéia fixa de desfrutar coisas que ainda nem sei e o sonho de habitar em lugares onde nunca estive.

Tenho vontades para suprir e um monte de janelas para abrir. Sem saída, aceito minha condição restrita, mas faço ser intenso tudo que já conheci.

Posso até ser limitada do lado de fora, mas as minhas recordações não me deixam mentir: aqui dentro o espaço é imenso."

Fernanda Gaona
Alimento a idéia fixa de desfrutar coisas que ainda nem sei e o sonho de habitar em lugares onde nunca estive.Alimento a idéia fixa de desfrutar coisas que ainda nem sei e o sonho de habitar em lugares onde nunca estive.Alimento a idéia fixa de desfrutar coisas que ainda nem sei e o sonho de habitar em lugares onde nunca estive.
"E que o sol amanhã brilhe mais forte. 

Que o céu amanheça azul-felicidade enfeitado 

de nuvens cor de algodão. 

Que o amanhã seja melhor que ontem e que, 

a vida, abra um sorriso sincero, pra quem ainda 

... Acredita. 

Acredita sempre. 

Que a gente amanheça SOL, ao invés de só. 

Que façamos novos laços, ao invés de nós. 

E que ao acordar, penduremos amor, na porta de casa. 

E do coração.'' 

(Monalisa Macêdo)
 LIMBO LÍQUIDO ___

Sol em quase fim
E um nimbus-estrato
Passeia depressões
Pela Lua em quarto
E assombramentos
Pelo arco da ponte;

Vacila um triz,
Repensa,
Confirma,
Empina o nariz:

- salta –

Mergulha,
Acqualoco,
Na estrada
Dos peixes,
Surpreso pela coragem
Agarra a luz
Do dourado
E o segue
No nado
Até...

A noite cansada
Saciada de morte
Devolve o corpo
Ao dia que aflora:

- chove –

Nada chora.

(Wander Porto  in : Sopro da Madrugada)

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

ENXURRADA

Cantiga
De acender estrelas
E limpar as águas,
Cantiga
De zerar as mágoas
E não mais tecê-las,
Cantiga de cantar com a chuva que cai no telhado;

Cantiga
De queimar incenso
E comer com a mão,
Cantiga
De revirar o chão
E quebrar o senso
Cantiga de comer inhame com sal ou melado;

Cantiga
De ter fantasias
E renascer moleques,
Cantiga
De ser estripulias
E amarrar pileques,
Cantiga
De trançar embiras
E limpar as barras,
Cantiga
De tocar guitarra
E espantar as birras,
Cantiga de correr com a ema em pleno cerrado;

Cantiga de descanso do homem que planta,
Cantiga de sossego da mulher que fia,
Cantiga do olhar que a tudo encanta,
Cantiga de brilhar no encanto,
Cantiga de vem cá Maria,
Cantiga de voar meu canto,
Cantiga de correr ao nada,
Cantiga de não passar calço,
Cantiga de correr enxurrada,
Cantiga de andar descalço.

Wander Porto 

domingo, 26 de janeiro de 2014

Venha... 
Chegue bem de mansinho,
Se quiseres, permaneça! 
Quero-te por perto;
Faço gosto! 
E se for pra ir embora,
Que seja sem pressa...
Acho que a tristeza
Ainda pode esperar.
Eu, não!



Ana Soares