“Devíamos poder preparar os nossos sonhos como os artistas, as suas composições.
Como a matéria sutil da noite e da nossa alma, devíamos poder construir essas
pequenas obras-primas incomunicáveis, que, ainda menos que a rosa, duram apenas
o instante em que vão sendo sonhadas, e logo se apagam sem outro vestígio que a
nossa memória. Como quem resolve uma viagem, devíamos poder escolher essas
explicações sem veículos nem companhia, por mares, grutas, neves, montanhas e
até pelos astros, onde moram desde sempre heróis e deuses de todas as
mitologias, e os fabulosos animais do Zodíaco. Devíamos, à vontade, passear
pelas margens do Paraíba, lá onde suas espumas crespas correm com o luar por
entre as pedras, ao mesmo tempo cantando e chorando. Ou habitar uma tarde
prateada de Florença, e ir sorrindo para cada estátua dos palácios e das ruas,
como quem saúda muitas famílias de mármore... Ou contemplar nos Açores
hortênsias da altura de uma casa, lagos, de duas cores e cestos de vime nascendo
entre fontes, com águas frias de um lado e, do outro, quentes... Ou chegar a
Ouro Preto e continuar a ouvir aquela menina que estuda piano há duzentos anos,
hesitante e invisível, enquanto o cavalo branco escolhe, de olhos baixos, o
trevo de quatro folhas que vai comer. Quantos lugares, meu Deus, para essas
excursões! Lugares recordados ou apenas imaginados. Campos orientais
atravessados por nuvens de pavões. Ruas amarelas de pó, amarelas de sol, onde os
camelos de perfil de gôndola estacionam, com seus carros. Avenidas cor-de-rosa,
por onde cavalinhos emplumados, de rosa na testa e colar ao pescoço, conduzem
leves e elegantes coches policromos ... E lugares inventados, feitos ao nosso
gosto; jardins no meio do usar; pianos brancos que tocam sozinhos; livros que se
desarmam, transformados em música [...] E sonhar com os que amamos e conhecemos,
e estão perto ou longe, vivos ou mortos... Sonhar com eles no seu melhor
momento, quando foram mais merecedores de amor imortal... Ah!... - (que gostaria
você de sonhar esta noite?)” Cecilia Meireles
Um cadim de tudo que gosto, música, literatura, fotografia e outras coisinhas que me fazem feliz....
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
"Penso que, na prática, aconselhar alguém a que tenha esperança não é
muito diferente de aconselhá-la a ter paciência. É muito comum ouvir-se
dizer da boca de políticos recém-instalados que a impaciência é
contra-revolucionária. Talvez seja, talvez, mas eu inclino-me a pensar
que, pelo contrário, muitas revoluções se perderam por demasiada
paciência. Obviamente, nada tenho de pessoal contra a esperança, mas
prefiro a impaciência. Já é tempo de que ela se note no mundo para que
alguma coisa aprendam aqueles que preferem que nos alimentemos de
esperanças. Ou de utopias." Jose Saramago
domingo, 3 de fevereiro de 2013
Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.
Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque não me aceito a sério
Porque só sou essa cousa odiosa, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma...
- Alberto Caeiro
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.
Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque não me aceito a sério
Porque só sou essa cousa odiosa, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma...
- Alberto Caeiro
sábado, 2 de fevereiro de 2013
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
Clariceando
"Como é que ousaram me dizer que eu mais vegeto que vivo? Só porque levo a vida um pouco retirada das luzes do palco. Logo eu, que vivo a vida no seu elemento puro.Tão em contato estou com o inefável .Respiro profundamente Deus.E vivo muitas vidas. Não quero enumerar quantas vidas dos outros eu vivo. Mas sinto as todas, todas respirando.E tenho a vida dos meus mortos.A eles dedico muita meditação. Estou em pleno coração do mistério.Às vezes minha alma se contorce toda." Clarice Lispector
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
domingo, 27 de janeiro de 2013
sábado, 26 de janeiro de 2013
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
"... Entre as coisas mais verdadeiras que sempre leio e assino embaixo estão as concepções de que, quem ama cuida e quem quer, dá um jeito. Nisso, cabem cartas e e-mails pra encurtar distâncias, mensagens e telefonemas pra romper silêncios, e sempre que possível, encontros pra amenizar saudades. É isso...'"
Yohana Sanfer
Yohana Sanfer
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
sábado, 5 de janeiro de 2013
A vida não é justa, mas ainda é boa.
Quando estiver em dúvida, dê somente o próximo passo, pequeno .
Seu trabalho não cuidará de você quando você ficar doente. Seus amigos e familiares cuidarão. Permaneça em contato.
Pague o total de seus cartões de crédito, nunca o mínimo.
Você não tem que ganhar todas as vezes. Concorde em discordar.
Chore com alguém. Cura melhor do que chorar sozinho.
É bom ficar bravo com Deus, Ele pode suportar isso.
Economize para a aposentadoria começando com seu primeiro salário.
Quanto a chocolate, é inútil resistir.
Faça as pazes com seu passado, assim ele não atrapalha o presente.
Não compare sua vida com a dos outros. Você não tem idéia do que é a jornada deles.
Respire fundo. Isso acalma a mente.
Livre-se de qualquer coisa que não seja útil, bonito ou alegre..
Qualquer coisa que não o matar o tornará realmente mais forte.
Quando se trata do que você ama na vida, não aceite um não como resposta.
Use os lençóis bonitos, use roupa chic. Não guarde isto para uma ocasião especial. Hoje é especial.
O órgão sexual mais importante é o cérebro.
Ninguém mais é responsável pela sua felicidade, somente você.
Enquadre todos os assim chamados “desastres” com estas palavras ‘Em cinco anos, isto importará?’
Sempre escolha a vida.
O que outras pessoas pensam de você não é da sua conta.
O tempo cura quase tudo. Dê tempo ao tempo.
Não importa quão boa ou ruim é uma situação, ela mudará.
Não se leve muito a sério. Ninguém faz isso.
Acredite em milagres.
Não faça auditoria na vida. Destaque-se e aproveite-a ao máximo agora.
Envelhecer ganha da alternativa — morrer jovem.
Suas crianças têm apenas uma infância.
Tudo que verdadeiramente importa no final é que você amou.
Saia de casa todos os dias. Os milagres estão esperando em todos os lugares.
Se todos nós colocássemos nossos problemas em uma pilha e víssemos todos os dos outros como eles são, nós pegaríamos nossos mesmos problemas de volta.
A inveja é uma perda de tempo. Você já tem tudo o que precisa.
Acredite, o melhor ainda está por vir.
Não importa como você se sente, levante-se, vista-se bem e apareça.
Produza!
A vida não está amarrada com um laço, mas ainda é um presente.
Texto de Regina Brett, 90 anos de idade
( Compartilhado da comunidade Sinceridade Feminina)
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
domingo, 23 de dezembro de 2012
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.
Alberto Caeiro
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
"Mas estou cansada, apesar de minha alegria de
hoje, alegria que não se sabe de onde vem, como a da manhãzinha de
verão. Estou cansada, agora agudamente!
Vamos chorar juntos, baixinho. Por ter sofrido e continuar tão docemente. A dor cansada numa lágrima simplificada. Mas agora já é desejo de poesia, isso eu confesso, Deus. Durmamos de mãos dadas. O mundo rola e em alguma parte há coisas que não conheço. Durmamos sobre Deus e o mistério, nave quieta e frágil flutuando sobre o mar, eis o sono."
Clarice Lispector In: Coração Selvagem.
Vamos chorar juntos, baixinho. Por ter sofrido e continuar tão docemente. A dor cansada numa lágrima simplificada. Mas agora já é desejo de poesia, isso eu confesso, Deus. Durmamos de mãos dadas. O mundo rola e em alguma parte há coisas que não conheço. Durmamos sobre Deus e o mistério, nave quieta e frágil flutuando sobre o mar, eis o sono."
Clarice Lispector In: Coração Selvagem.
domingo, 16 de dezembro de 2012
"Um
homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir ao
céus. Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a
vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas. O mundo é isso,
revelou. Um montão de gente, um mar de fogueirinhas. Cada pessoa brilha
com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras
iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de
todas as cores. Existe gente de fogo sereno que nem percebe o vento e
gente de fogo louco que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos
bobos, não iluminam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com
tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem
chegar perto pega fogo".
Eduardo Galeano
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
domingo, 9 de dezembro de 2012
Quintanares
Saudade
''Via você na janela na distância,
na solidão na penumbra do amanhecer.
Via você na noite, nas estrelas, nos planetas,
nos mares, no brilho do sol e no anoitecer.
Via você no ontem , no hoje, no amanhã...
Mas não via você no momento.
Que saudade...
Mário Quintana
''Via você na janela na distância,
na solidão na penumbra do amanhecer.
Via você na noite, nas estrelas, nos planetas,
nos mares, no brilho do sol e no anoitecer.
Via você no ontem , no hoje, no amanhã...
Mas não via você no momento.
Que saudade...
Mário Quintana
sábado, 8 de dezembro de 2012
“A casa, cujo chão fora batido com seixos do
rio quando estes ainda não faltavam, essa velha construção terrosa de
que em breve se despediria, tinha para ele o odor da sua própria vida.
Da janela, debaixo dum céu velado, as árvores permaneciam
imóveis, como que suspensas. Aproveite o dia, aproveite a vida, seja
sincero, ele diria, mesmo que, de fora, os outros imaginem com outros
olhos como você imagina a si mesmo"...
Luigi Pirandello (1867-1936)
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
"
O bom de ter a fé ao alcance dos sonhos e da alma é que, se hoje não
deu, amanhã tem mais: mais de mim, mais de nós, mais de tudo o que é
vivo, de tudo o que é novo, de tudo o que esbarra em Deus e que a cada
instante, sobre todas as coi sas, deixa uns fios de esperança preparando
a próxima colheita, o próximo encontro. Não existe nada mais acolhedor
que a bonita certeza de tudo passa só pra nos fazer enxergar a tal vida
com os olhos sinceros do coração, com os sentidos aguçados e com um amor
reinventado que transforma tudo o que vê. Só mesmo a beleza das coisas
simples para nos salvar da frieza das coisas mornas."
( Priscila Rôde )
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
Perder-me em Havana
Queria perder-me nas manhãs,
Nas tardes, nas noites de Havana
Ouvindo salsa, batuque,
Em Malecón, no cais do porto,
Na cidade velha que se
Incendeia afogada em rum
Banhada pelo mar
Perdida, achada - fluídica!
Queria perder-me nas manhãs,
Nas tardes, nas noites de Havana
Ouvindo salsa, batuque
Em Malecón, no cais do porto,
Na cidade velha que se
Desfaz em cores
Em sobressaltos, suspiros,
Ensimesmada e lírica - mágica!
Queria perder-me nas manhãs,
Nas tardes, nas noites de Havana
Ouvindo salsa, batuque,
Em Malecón, no cais do porto,
Na cidade velha que se faz
Fácil, mansa e pervertida,
Pulsando, rindo - chorando!
Queria perder-me nas manhãs,
Nas tardes, nas noites de Havana
Ouvindo salsa, batuque,
Em Malecón, no cais do porto,
Na cidade velha que se
Acorda sonhando a esmo
Sufocada em si mesma,
Em promessas, dúvidas - paixões!
Queria...
Manoel Soares Magalhães
Queria perder-me nas manhãs,
Nas tardes, nas noites de Havana
Ouvindo salsa, batuque,
Em Malecón, no cais do porto,
Na cidade velha que se
Incendeia afogada em rum
Banhada pelo mar
Perdida, achada - fluídica!
Queria perder-me nas manhãs,
Nas tardes, nas noites de Havana
Ouvindo salsa, batuque
Em Malecón, no cais do porto,
Na cidade velha que se
Desfaz em cores
Em sobressaltos, suspiros,
Ensimesmada e lírica - mágica!
Queria perder-me nas manhãs,
Nas tardes, nas noites de Havana
Ouvindo salsa, batuque,
Em Malecón, no cais do porto,
Na cidade velha que se faz
Fácil, mansa e pervertida,
Pulsando, rindo - chorando!
Queria perder-me nas manhãs,
Nas tardes, nas noites de Havana
Ouvindo salsa, batuque,
Em Malecón, no cais do porto,
Na cidade velha que se
Acorda sonhando a esmo
Sufocada em si mesma,
Em promessas, dúvidas - paixões!
Queria...
Manoel Soares Magalhães
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
- O Meu Olhar
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...
Alberto Caeiro
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...
Alberto Caeiro
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
- Não me Importo com as Rimas
Não me importo com as rimas. Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior
Olho e comovo-me,
Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,
E a minha poesia é natural corno o levantar-se vento...
Alberto Caeiro
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior
Olho e comovo-me,
Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,
E a minha poesia é natural corno o levantar-se vento...
sábado, 24 de novembro de 2012
“Descobri faz algum tempo que as mãos se opõe à cabeça, e quando você movimenta estas, aquela pode parar. Não sei se é uma grande descoberta, talvez não, mas de qualquer forma, gosto quando a cabeça para o maior tempo possível, caso contrário, enche-se de temores, suspeitas, desejos, memórias e todas essas inutilidades que as cabeças guardam para deixar vir à tona quando as mãos estão desocupadas.”
Caio Fernando Abreu in: O marinheiro. Triângulo das águas
Caio Fernando Abreu in: O marinheiro. Triângulo das águas
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
terça-feira, 20 de novembro de 2012
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
Rubens Alves, pra começar a semana:
Eu gostaria de ser muitas coisas que não tive tempo e competência para ser. A vida é curta e as artes são muitas. Gostaria de ser pianista, jardineiro, artista de ferro e vidro - talvez monge. E gostaria de ter sido um cozinheiro.
(...)Faz tempo, num espaço meu, eu gostava de reunir casais amigos uma vez por mês para cozinhar. Não os convidava para jantar. Convidava para cozinhar. A festa começava cedo, lá pelas seis da tarde. E todos se punham a trabalhar, descascando cebola, cortando tomates, preparando as carnes. Dizia Guimarães Rosa: "a coisa não está nem na partida e nem na chegada, mas na travessia." Comer é a chegada. Passa rápido. Mas a travessia é longa. Era na travessia que estava o nosso maior prazer. A gente ia cozinhando, bebericando, beliscando petiscos, rindo, conversando. Ao final, lá pelas onze, a gente comia. Naqueles tempos o que já tinha sido voltava a ser. A gente era feliz.
Sinto-me feliz cozinhando. Não sou cozinheiro. Preparo pratos simples. Gosto de inventar. O que mais gosto de fazer são as sopas. Vaca atolada, sopa de fubá, sopa de abóbora com maracujá, sopa de beringela, sopa da mandioquinha com manga, sopa de coentro... Você já ouviu falar em sopa de coentro? É sopa de portugueses pobres, deliciosa, com muito azeite e pão torrado. A sopa desce quente e, chegando no estômago, confirma...A culinária leva a gente bem próximo das feiticeiras.
(Correio Popular, Caderno C, 19/03/2000)
Eu gostaria de ser muitas coisas que não tive tempo e competência para ser. A vida é curta e as artes são muitas. Gostaria de ser pianista, jardineiro, artista de ferro e vidro - talvez monge. E gostaria de ter sido um cozinheiro.
(...)Faz tempo, num espaço meu, eu gostava de reunir casais amigos uma vez por mês para cozinhar. Não os convidava para jantar. Convidava para cozinhar. A festa começava cedo, lá pelas seis da tarde. E todos se punham a trabalhar, descascando cebola, cortando tomates, preparando as carnes. Dizia Guimarães Rosa: "a coisa não está nem na partida e nem na chegada, mas na travessia." Comer é a chegada. Passa rápido. Mas a travessia é longa. Era na travessia que estava o nosso maior prazer. A gente ia cozinhando, bebericando, beliscando petiscos, rindo, conversando. Ao final, lá pelas onze, a gente comia. Naqueles tempos o que já tinha sido voltava a ser. A gente era feliz.
Sinto-me feliz cozinhando. Não sou cozinheiro. Preparo pratos simples. Gosto de inventar. O que mais gosto de fazer são as sopas. Vaca atolada, sopa de fubá, sopa de abóbora com maracujá, sopa de beringela, sopa da mandioquinha com manga, sopa de coentro... Você já ouviu falar em sopa de coentro? É sopa de portugueses pobres, deliciosa, com muito azeite e pão torrado. A sopa desce quente e, chegando no estômago, confirma...A culinária leva a gente bem próximo das feiticeiras.
(Correio Popular, Caderno C, 19/03/2000)
domingo, 18 de novembro de 2012
- Quem me Dera
Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada,
E que para de onde veio volta depois
Quase à noitinha pela mesma estrada.
Eu não tinha que ter esperanças — tinha só que ter rodas ...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.
Alberto Caieiro
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada,
E que para de onde veio volta depois
Quase à noitinha pela mesma estrada.
Eu não tinha que ter esperanças — tinha só que ter rodas ...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.
Alberto Caieiro
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
sábado, 17 de novembro de 2012
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
"O
mais terrível é que acabou também o impulso do olho, do toque. O desejo
está bloqueado . Com o bloqueio do desejo, vem junto o bloqueio do
sonho, da fantasia, da mera curiosidade. Os impulsos vitais mais básicos
estão lesados - Eros algemado -, e o que sobrou no rosto das pessoas
pelos bares, pelas festas, pelas ruas é uma inacreditável tristeza."
( Caio Fernando Abreu - A Vida gritando nos cantos in: Bancarrota blues -)
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
terça-feira, 13 de novembro de 2012
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
"Sinto-me como uma semente no meio do inverno,
sabendo que a primavera se aproxima. O broto romperá a casca e a vida
que ainda dorme em mim haverá de subir para a superfície, quando for
chamada. O silêncio é doloroso, mas é no silêncio que as
coisas tomam forma, e existe momentos em nossas vidas que tudo que
devemos fazer é esperar. Dentro de cada um, no mais profundo no ser,
está uma força que vê e escuta aquilo que não podemos ainda perceber.
Tudo o que somos hoje nasceu daquele silêncio de ontem. Somos muito mais
capazes do que pensamos. Há momentos em que a única maneira de aprender
é não tomar qualquer iniciativa, não fazer nada. Porque, mesmo nos
momentos de total inação, esta nossa parte secreta está trabalhando e
aprendendo. Quando o conhecimento oculto na alma se manifesta, ficamos
surpresos conosco mesmos, e nossos pensamentos de inverno se transformam
em flores, que cantam canções nunca antes sonhadas. A vida sempre nos
dará mais do que achamos que merecemos".__Khalil Gibran__
"Não há gente completamente boa nem gente
completamente má, está tudo misturado e a separação é impossível. O mal
está presente no próprio gênero humano, ninguém presta. Às vezes a gente
melhora. Mas passa. Ouça, Virgínia, é preciso amar o inútil. Criar
pombos sem pensar em comê-los, plantar roseiras sem pensar em colher
rosas, escrever sem pensar em publicar, fazer coisas assim sem esperar
nada em troca. A distância mais curta entre dois pontos pode ser a linha
reta, mas é nos caminhos curvos que se encontram as melhores coisas.
Este céu que nem promete chuva. Aquela estrelinha que esta nascendo ali.
Está vendo aquela estrelinha? Há milênios não tem feito nada, não guiou
os Reis Magos, nem os pastores, nem os marinheiros. Não fez nada.
Apenas brilha. Ninguém repara nela porque é uma estrela inútil. Pois é
preciso amar o inútil, porque no inútil esta a beleza. No inútil esta
Deus".
Ligia Fagundes. Telles
Ligia Fagundes. Telles
domingo, 11 de novembro de 2012
sábado, 10 de novembro de 2012
Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar.
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...
Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.
Álvaro de Campos
Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.
Álvaro de Campos
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
"Quantos somos dentro de nós? Cada pessoa é habitada por
diversas personalidades, e aí talvez esteja a origem da nossa
angústia existencial. Todos exigem de nós uma classificação, um
currículo de qualidades e defeitos que possam ser descritos em poucas
linhas. No entanto, a contradição é nossa única marca registrada." Marta Medeiros
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
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