Um cadim de tudo que gosto, música, literatura, fotografia e outras coisinhas que me fazem feliz....
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
"Senhor"
ensina-nos a orar, sem esquecer o trabalho. A dar, sem olhar a quem. A
servir, sem perguntar até quando. A sofrer, sem magoar, seja quem for. A
progredir, sem perder a simplicidade. A semear o bem, sem pensar nos
resultados. A desculpar, sem condições. A marchar para frente, sem
contar os obstáculos. A ver sem malícia. A escutar, sem corromper os
assuntos. A falar, sem ferir. A compreender o próximo, sem exigir
entendimento. A respeitar os semelhantes, sem reclamar consideração. A
dar o melhor de nós, além da execução do próprio dever, sem cobrar taxas
de reconhecimento. Senhor, fortalece em nós, a paciência para com as
dificuldades dos outros, assim como precisamos da paciência dos outros,
para com as nossas próprias dificuldades. Ajuda-nos para que a ninguém
façamos aquilo que não desejamos para nós. Auxilia-nos, sobretudo, a
reconhecer que a nossa felicidade mais alta será, invariavelmente,
aquela de cumprir seus desígnios onde e como queiras, hoje, agora e
sempre".
Chico Xavier
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
Clariceando
"Impossível!
Impossível que essa doçura de ar não traga outras!
Diz o coração se quebrando."
(Clarice Lispector in: A Descoberta do Mundo)
Impossível que essa doçura de ar não traga outras!
Diz o coração se quebrando."
(Clarice Lispector in: A Descoberta do Mundo)
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
"Esta é uma primavera diferente, com as matas
intactas, as árvores cobertas de folhas – e só os poetas, entre os
humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos
bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.
Mas é certo que a
primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra
maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação. Algum dia,
talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a
primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste
ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros,
com outros cantos e outros hábitos – e os ouvidos que por acaso os
ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e
amou".
Cecília Meireles - Primavera in: obra em prosa - v. I
Cecília Meireles - Primavera in: obra em prosa - v. I
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
"Mais do que na força das palavras, eu acredito no poder das atitudes. Na grandeza dos gestos. Nas sutilezas das ações. Guarde seus dizeres para utilizá-los depois que fizer. Eles serão apenas um complemento. Haja o que houver, aja. Palavras quando não andam sincronizadas com nossos pés, não chegam a lugar algum. Não dizem absolutamente nada. É na coerência das ações que a
a gente se encontra e o
outro nos reconhece. Ninguém pode viver preso em um discurso. Ou seja,
"seja"!
Fernanda Gaona
"A nossa mente é um grande caleidoscópio,
refletindo o que somos, o que pensamos, o que fazemos, onde estamos
conforme tudo que passamos, ou deixamos de passar, e tudo que nos
acompanha enquanto vamos traçando nossos caminhos. Se minhas loucuras tivessem explicações, não seriam loucuras. Eu jamais iria iria para a
fogueira por uma opinião minha, afinal, não tenho certeza alguma. Porém,
eu iria pelo direito de ter e mudar de opinião, quantas vezes eu
quisesse". F. Nietzsche
domingo, 2 de setembro de 2012
"Influenciar uma pessoa é dar-lhe a nossa própria alma. O indivíduo deixa de pensar com os seus próprios pensamentos ou de arder com as suas próprias paixões. As suas virtudes não lhe são naturais. Os seus pecados, se é que existe tal coisa, são tomados de empréstimo. Torna-se o eco de uma música alheia, o ator de um papel que não foi escrito para ele. O objetivo da vida é o desenvolvimento próprio, a total percepção da própria natureza, é para isso que cada um de nós
vem ao mundo. Hoje em dia as pessoas têm medo de si próprias. Esqueceram o maior de todos os deveres, o dever para consigo mesmos. É verdade que são caridosas. Alimentam os esfomeados e vestem os pobres. Mas as suas próprias almas morrem de fome e estão nuas. A coragem desapareceu da nossa raça e se calhar nunca a tivemos realmente. O temor à sociedade, que é a base da moral, e o temor a Deus, que é o segredo da religião, são as duas coisas que nos governam."
Oscar Wilde
"Mas se te torturas tanto a
cada manhã, desligando sem sentir o despertador para que não te jogue
bruscamente no centro de um mais um dia a ser preenchido unicamente pelo
que conseguires inventar, por que não participar então de
um curso qualquer de inverno? Algo como “Mandalas Alquímicos e a
Arquitetura das Catedrais Góticas”, “Prefixos Sânscritos na Obra de
Guimarães Rosa”, ou ainda “Premonições Pós-Modernas no Cinema de J. B.
Tanko”.sábado, 1 de setembro de 2012
Marina Lima - Setembro
Primavera
Tudo quer se experimentar
Todas as fronteiras
Querem evaporar
Quem não se encarar com amor
Vai terminar ovelha
No bolso de um pastor
É Setembro
Tudo tenta se superar
E cheia até a beira
A vida quer jorrar
Quem não se encarar com amor
Vai fazer besteira
Na esteira do rancor
Um mundo sem fome mais
Sem opressão
Sem tráfico, sem terror
E com união/educação
Primavera
Tudo no vermelho e sem luz
Mas se alguém pergunta
Dizemos tudo azul
Na TV alguém da maré
Uma brasileira
Diz ser feliz e é
Um mundo sem fome mais
Sem opressão
Sem tráfico, sem terror
E com união/educação
Marina Lima
Tudo quer se experimentar
Todas as fronteiras
Querem evaporar
Quem não se encarar com amor
Vai terminar ovelha
No bolso de um pastor
É Setembro
Tudo tenta se superar
E cheia até a beira
A vida quer jorrar
Quem não se encarar com amor
Vai fazer besteira
Na esteira do rancor
Um mundo sem fome mais
Sem opressão
Sem tráfico, sem terror
E com união/educação
Primavera
Tudo no vermelho e sem luz
Mas se alguém pergunta
Dizemos tudo azul
Na TV alguém da maré
Uma brasileira
Diz ser feliz e é
Um mundo sem fome mais
Sem opressão
Sem tráfico, sem terror
E com união/educação
Marina Lima
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
"Não há poesia na miséria. Talvez por isso eu não encontre uma forma bonita de encerrar este texto. Mas faço minhas as palavras de 'Che Guevara', e espero apenas que "acima de tudo procurem sentir no mais profundo de vocês qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. É a mais bela qualidade de um revolucionário". A poesia está no coração daquele que sabe semear o alimento não só do corpo, mas também da alma nos áridos e miseráveis solos dos corações. "Temos de ir à procura das pessoas, porque podem ter fome de pão ou de amizade."
Madre Tereza de Calcutá
Madre Tereza de Calcutá
"Não é preciso agendar, entrar em fila, contar
com a sorte, acordar cedo para pegar senha: "a possibilidade de
recomeço está disponível o tempo todo, na maior parte dos casos. Não tem
mistério, ela vem embrulhada com o papel bonito de cada instante novo, essa página em branco que olha para a gente sem ter a mínima ideia do que escolheremos escrever nas suas linhas. O que é preciso mesmo é coragem pra abrir o presente."
Ana Jácomo
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
"... mas tenho um milagre, sim. O milagre das
folhas. Estou andando pela rua e do vento me cai uma folha exatamente
nos cabelos. A incidência da linha de milhares de folhas transformadas
em uma única, e de milhões de pessoas a incidência de reduzí-las a mim. Isso me acontece tantas vezes
r que passei a me
considerar modestamente a escolhida das folhas. Com gestos furtivos tiro
a folha dos cabelos e guardo-a na bolsa, como o mais diminuto diamante.
Até que um dia, abrindo a bolsa, encontro entre os objetos a folha
seca, engelhada, morta. Jogo-a fora: "não me interessa fetiche morto
como lembrança". E também porque sei que novas folhas coincidirão
comigo. Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma grande
delicadeza".
Clarice Lispector
Clarice Lispector
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
Vanessa Leonardi
"Ficar bem nem sempre deixa outras opções . É
estranho quando as coisas simplesmente têm de terminar. É o estágio onde
todos os sentimentos já evoluíram para um nada. É o nada que você optou
para parar de sentir dor. No início você briga, chora, faz drama mexicano. Então percebe
que é cansativo demais manter esse
jeito de levar as coisas . Acostuma-se. Não que pare de doer, mas que
cai no seu entendimento que às vezes perdemos algo e não há solução . No
fim você coloca um sorriso no rosto e finge que é sincero, até que a
vida o faça realmente ser. Talvez os amores eternos sejam amenos e os
intensos, passageiros. É isso"!
Caio Fernando Abreu
Caio Fernando Abreu
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Miserere Nobis
Composição: Capinan
Miserere-re nobis
Ora, ora pro nobis
É no sempre será, ô, iaiá
É no sempre, sempre serão
Já não somos como na chegada
Calados e magros, esperando o jantar
Na borda do prato se limita a janta
As espinhas do peixe de volta pro mar
Miserere-re nobis
Ora, ora pro nobis
É no sempre será, ô, iaiá
É no sempre, sempre serão
Tomara que um dia de um dia seja
Para todos e sempre a mesma cerveja
Tomara que um dia de um dia não
Para todos e sempre metade do pão
Tomara que um dia de um dia seja
Que seja de linho a toalha da mesa
Tomara que um dia de um dia não
Na mesa da gente tem banana e feijão
Miserere-re nobis
Ora, ora pro nobis
É no sempre será, ô, iaiá
É no sempre, sempre serão
Já não somos como na chegada
O sol já é claro nas águas quietas do mangue
Derramemos vinho no linho da mesa
Molhada de vinho e manchada de sangue
Miserere-re nobis
Ora, ora pro nobis
É no sempre será, ô, iaiá
É no sempre, sempre serão
Bê, rê, a - Bra
Zê, i, lê - zil
Fê, u - fu
Zê, i, lê - zil
Cê, a - ca
Nê, agá, a, o, til - ão
Ora pro nobis
domingo, 26 de agosto de 2012
__Martha Medeiros__
"Pode me tirar a compreensão, o perdão, os ossos contados como dias nas
paredes da carne. Pode me tirar o egoísmo e a paixão, a cultura que
adquiri às pressas, a serenidade para julgar, a severidade do combate.
Podes me tirar as metáforas,
a fuga,
minha saída do sangue. Pode me tirar os excessos do mínimo, o idioma,
meu receio de ficar sozinho. Pode me tirar o colo, a sesta, a audição
das escadas. Podes me tirar o desejo e pôr a inquietação em seu lugar.
Pode me tirar a liberdade que confundi com justiça porque nenhuma das
duas se conheceu a tempo. Não há castigo infinito. Não há dor infinita.
Um dia a gente termina para começar, começa para terminar, refaz o
percurso como se nada tivesse acontecido antes. Deixe-me apenas uma
cadeira de palha, amarela, para olhar com piedade o que fui e me
deslumbrar com as ruínas".Fabricio Carpinejar
Vincent van Gogh, A Cadeira Amarela, 1888
sábado, 25 de agosto de 2012
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
"Conheço
minhas pegadas, de tanto ir e vir. Às vezes pisam fundo como
carregassem o peso do mundo. Às vezes ficam amassadas sob o descuido das
outras pegadas. Sobre elas, a lua nova desdobra sua saia em cena de
nudez no chão da praia. Só perco meus passos na maré cheia: "essa mania
do mar de tirar seus sapatos sobre a areia. Conheço bem minhas pegadas.
Sou capaz de identificá-las em qualquer lugar. Se ao menos eu soubesse
aonde vão me levar".
__Flora Figueiredo__
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
terça-feira, 21 de agosto de 2012
domingo, 19 de agosto de 2012
O HISTORIADOR
Veio para ressuscitar o tempo
e escalpelar os mortos,
as condecorações, as liturgias, as espadas,
Veio para ressuscitar o tempo
e escalpelar os mortos,
as condecorações, as liturgias, as espadas,
o espectro das fazendas submergidas,
o muro de pedra entre membros da família,
o ardido queixume das solteironas,
os negócios de trapaça, as ilusões jamais confirmadas
nem desfeitas.
Veio para contar
o que não faz jus a ser glorificado
e se deposita, grânulo,
no poço vazio da memória.
É importuno,
sabe-se importuno e insiste,
rancoroso, fiel.
Carlos Drummond de Andrade, in 'A Paixão Medida'
o muro de pedra entre membros da família,
o ardido queixume das solteironas,
os negócios de trapaça, as ilusões jamais confirmadas
nem desfeitas.
Veio para contar
o que não faz jus a ser glorificado
e se deposita, grânulo,
no poço vazio da memória.
É importuno,
sabe-se importuno e insiste,
rancoroso, fiel.
Carlos Drummond de Andrade, in 'A Paixão Medida'
sábado, 18 de agosto de 2012
Caminho
Há mentiras de mais e compromissos
(Poemas são palavras recompostas)
E por tantas perguntas sem respostas
Há mentiras de mais e compromissos
(Poemas são palavras recompostas)
E por tantas perguntas sem respostas
Mascara-se a verdade com postiços.
Não vida, nem sombra, nem razão,
É jaula de doidice furiosa,
Eriçada de gritos, angulosa,
Com estilhaços de vidro pelo chão.
E carrego de mais esta jornada
E protestos não servem, nem suores,
Já mordidos os membros de tremores,
Já vencida a bandeira e arrastada.
Depois se me apagaram os amores
Que a viagem fizeram desejada.
JOSE SARAMAGO
Não vida, nem sombra, nem razão,
É jaula de doidice furiosa,
Eriçada de gritos, angulosa,
Com estilhaços de vidro pelo chão.
E carrego de mais esta jornada
E protestos não servem, nem suores,
Já mordidos os membros de tremores,
Já vencida a bandeira e arrastada.
Depois se me apagaram os amores
Que a viagem fizeram desejada.
JOSE SARAMAGO
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
“No café da manhã, minhas certezas servem-se de dúvidas. E têm dias em que me
sinto estrangeiro em Montevidéu e em qualquer outra parte. Nesses dias, dias sem
sol, noites sem lua, nenhum lugar é o meu lugar e não consigo me reconhecer em
nada, em ninguém. As palavras não se parecem àquilo que dão nome, e não se
parecem nem mesmo ao seu próprio som. Então não estou onde estou. Deixo meu
corpo e saio, para longe, para lugar nenhum, e não quero estar com ninguém, nem
mesmo comigo, e não tenho, nem quero ter, nome algum: então perco a vontade de
me chamar ou de ser chamado.”
Eduardo Galeano In: 'O Livro dos abraços'
Eduardo Galeano In: 'O Livro dos abraços'
“na saliva
no papel
no eclipse
em todas as linhas
em todas as cores
em todas as jarras
no meu peito
fora, dentro
no tinteiro na dificuldade de escrever na maravilha dos meus olhos, nas últimas luas do sol (mas o sol não tem luas) em tudo e dizer em tudo é estúpido e magnífico DIEGO na minha urina DIEGO na minha boca no meu coração na minha loucura no meu sonho no mata-borrão na ponta da caneta nos lápis nas paisagens na alimentação no metal na imaginação nas doenças nas montras nas suas astúcias nos seus olhos na sua boca nas suas mentiras. “
Frida kahlo
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
terça-feira, 14 de agosto de 2012
E não esqueçamos
E não esqueçamos nunca a melancolia, o gasto sentimentalismo, perfeitos frutos impuros de uma maravilhosa qualidade esquecida, deixados atrás pelo frenético livresco; a luz da lua, o cisne ao anoitecer, “coração meu” são sem dúvida o poético elementar e imprescindível. Quem foge do mau gosto cai no gelo.
PABLO NERUDA
E não esqueçamos nunca a melancolia, o gasto sentimentalismo, perfeitos frutos impuros de uma maravilhosa qualidade esquecida, deixados atrás pelo frenético livresco; a luz da lua, o cisne ao anoitecer, “coração meu” são sem dúvida o poético elementar e imprescindível. Quem foge do mau gosto cai no gelo.
PABLO NERUDA
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
mineiridades
Sotaque mineiro: é ilegal, imoral ou engorda?
''Minas não é palavra montanhosa.
É palavra abissal. Minas é dentro
E fundo”
Carlos Drummond de Andrade
Gente, simplificar é um pecado. Se a vida não fosse tão corrida, se não tivesse tanta conta para pagar, tantos processos — oh sina — para analisar, eu fundaria um partido cuja luta seria descobrir as falas de cada região do Brasil.
Cadê os lingüistas deste país? Sinto falta de um tratado geral das sotaques brasileiros. Não há nada que me fascine mais. Como é que as montanhas, matas ou mares influem tanto, e determinam a cadência e a sonoridade das palavras?
É um absurdo. Existem livros sobre tudo; não tem (ou não conheço) um sobre o falar ingênuo deste povo doce. Escritores, ô de casa, cadê vocês? Escrevam sobre isto, se já escreveram me mandem, que espero ansioso.
Um simples" mas" é uma coisa no Rio Grande do Sul. É tudo menos um "mas" nordestino, por exemplo. O sotaque das mineiras deveria ser ilegal, imoral ou engordar. Porque, se tudo que é bom tem um desses horríveis efeitos colaterais, como é que o falar, sensual e lindo (das mineiras) ficou de fora?
Porque, Deus, que sotaque! Mineira devia nascer com tarja preta avisando: ouvi-la faz mal à saúde. Se uma mineira, falando mansinho, me pedir para assinar um contrato doando tudo que tenho, sou capaz de perguntar: só isso? Assino achando que ela me faz um favor.
Eu sou suspeitíssimo. Confesso: esse sotaque me desarma. Certa vez quase propus casamento a uma menina que me ligou por engano, só pelo sotaque.
Mas, se o sotaque desarma, as expressões são um capítulo à parte. Não vou exagerar, dizendo que a gente não se entende... Mas que é algo delicioso descobrir, aos poucos, as expressões daqui, ah isso é...
Os mineiros têm um ódio mortal das palavras completas. Preferem, sabe-se lá por que, abandoná-las no meio do caminho (não dizem: pode parar, dizem: "pó parar". Não dizem: onde eu estou?, dizem: "ôndôtô?"). Parece que as palavras, para os mineiros, são como aqueles chatos que pedem carona. Quando você percebe a roubada, prefere deixá-los no caminho.
Os não-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas, supõem, precipitada e levianamente, que os mineiros vivem — lingüisticamente falando — apenas de uais, trens e sôs. Digo-lhes que não.
Mineiro não fala que o sujeito é competente em tal ou qual atividade. Fala que ele é bom de serviço. Pouco importa que seja um juiz, um jogador de futebol ou um ator de filme pornô. Se der no couro — metaforicamente falando, claro — ele é bom de serviço. Faz sentido...
Mineiras não usam o famosíssimo tudo bem. Sempre que duas mineiras se encontram, uma delas há de perguntar pra outra: "cê tá boa?" Para mim, isso é pleonasmo. Perguntar para uma mineira se ela tá boa, é como perguntar a um peixe se ele sabe nadar. Desnecessário.
Há outras. Vamos supor que você esteja tendo um caso com uma mulher casada. Um amigo seu, se for mineiro, vai chegar e dizer: — Mexe com isso não, sô (leia-se: sai dessa, é fria, etc).
O verbo "mexer", para os mineiros, tem os mais amplos significados. Quer dizer, por exemplo, trabalhar. Se lhe perguntarem com o que você mexe, não fique ofendido. Querem saber o seu ofício.
Os mineiros também não gostam do verbo conseguir. Aqui ninguém consegue nada. Você não dá conta. Sôcê (se você) acha que não vai chegar a tempo, você liga e diz:
— Aqui, não vou dar conta de chegar na hora, não, sô.
Esse "aqui" é outro que só tem aqui. É antecedente obrigatório, sob pena de punição pública, de qualquer frase. É mais usada, no entanto, quando você quer falar e não estão lhe dando muita atenção: é uma forma de dizer, olá, me escutem, por favor. É a última instância antes de jogar um pão de queijo na cabeça do interlocutor.
Mineiras não dizem "apaixonado por". Dizem, sabe-se lá por que, "apaixonado com". Soa engraçado aos ouvidos forasteiros. Ouve-se a toda hora: "Ah, eu apaixonei com ele...". Ou: "sou doida com ele" (ele, no caso, pode ser você, um carro, um cachorro). Elas vivem apaixonadas com alguma coisa.
Que os mineiros não acabam as palavras, todo mundo sabe. É um tal de bonitim, fechadim, e por aí vai. Já me acostumei a ouvir: "E aí, vão?". Traduzo: "E aí, vamos?". Não caia na besteira de esperar um "vamos" completo de uma mineira. Não ouvirá nunca.
Na verdade, o mineiro é o baiano lingüístico. A preguiça chegou aqui e armou rede. O mineiro não pronuncia uma palavra completa nem com uma arma apontada para a cabeça.
Eu preciso avisar à língua portuguesa que gosto muito dela, mas prefiro, com todo respeito, a mineira. Nada pessoal. Aqui certas regras não entram. São barradas pelas montanhas. Por exemplo: em Minas, se você quiser falar que precisa ir a um lugar, vai dizer:
— Eu preciso de ir.
Onde os mineiros arrumaram esse "de", aí no meio, é uma boa pergunta. Só não me perguntem. Mas que ele existe, existe. Asseguro que sim, com escritura lavrada em cartório. Deixa eu repetir, porque é importante. Aqui em Minas ninguém precisa ir a lugar nenhum. Entendam... Você não precisa ir, você "precisa de ir". Você não precisa viajar, você "precisa de viajar". Se você chamar sua filha para acompanhá-la ao supermercado, ela reclamará:
— Ah, mãe, eu preciso de ir?
No supermercado, o mineiro não faz muitas compras, ele compra um tanto de coisa. O supermercado não estará lotado, ele terá um tanto de gente. Se a fila do caixa não anda, é porque está agarrando lá na frente. Entendeu? Deus, tenho que explicar tudo. Não vou ficar procurando sinônimo, que diabo. E não digo mais nada, leitor, você está agarrando meu texto. Agarrar é agarrar, ora!
Se, saindo do supermercado, a mineirinha vir um mendigo e ficar com pena, suspirará:
— Ai, gente, que dó.
É provável que a essa altura o leitor já esteja apaixonado pelas mineiras. Eu aviso que vá se apaixonar na China, que lá está sobrando gente. E não vem caçar confusão pro meu lado.
Porque, devo dizer, mineiro não arruma briga, mineiro "caça confusão". Se você quiser dizer que tal sujeito é arruaceiro, é melhor falar, para se fazer entendido, que ele "vive caçando confusão".
Para uma mineira falar do meu desempenho sexual, ou dizer que algo é muitíssimo bom (acho que dá na mesma), ela, se for jovem, vai gritar: "Ô, é sem noção". Entendeu, leitora? É sem noção! Você não tem, leitora, idéia do tanto de bom que é. Só não esqueça, por favor, o "Ô" no começo, porque sem ele não dá para dar noção do tanto que algo é sem noção, entendeu?
Ouço a leitora chiar:
— Capaz...
Vocês já ouviram esse "capaz"? É lindo. Quer dizer o quê? Sei lá, quer dizer "tá fácil que eu faça isso", com algumas toneladas de ironia. Gente, ando um péssimo tradutor. Se você propõe a sua namorada um sexo a três (com as amigas dela), provavelmente ouvirá um "capaz..." como resposta. Se, em vingança contra a recusa, você ameaçar casar com a Gisele Bundchen, ela dirá: "ô dó dôcê". Entendeu agora?
Não? Deixa para lá. É parecido com o "nem...". Já ouviu o "nem..."? Completo ele fica:
- Ah, nem...
O que significa? Significa, amigo leitor, que a mineira que o pronunciou não fará o que você propôs de jeito nenhum. Mas de jeito nenhum. Você diz: "Meu amor, cê anima de comer um tropeiro no Mineirão?". Resposta: "nem..." Ainda não entendeu? Uai, nem é nem. Leitor, você é meio burrinho ou é impressão?
A propósito, um mineiro não pergunta: "você não vai?". A pergunta, mineiramente falando, seria: "cê não anima de ir"? Tão simples. O resto do Brasil complica tudo. É, ué, cês dão umas volta pra falar os trem...
Certa vez pedi um exemplo e a interlocutora pensou alto:
— Você quer que eu "dou" um exemplo...
Eu sei, eu sei, a gramática não tolera esses abusos mineiros de conjugação. Mas que são uma gracinha, ah isso lá são.
Ei, leitor, pára de babar. Que coisa feia. Olha o papel todo molhado. Chega, não conto mais nada. Está bem, está bem, mas se comporte.
Falando em "ei...". As mineiras falam assim, usando, curiosamente, o "ei" no lugar do "oi". Você liga, e elas atendem lindamente: "eiiii!!!", com muitos pontos de exclamação, a depender da saudade...
Tem tantos outros... O plural, então, é um problema. Um lindo problema, mas um problema. Sou, não nego, suspeito. Minha inclinação é para perdoar, com louvor, os deslizes vocabulares das mineiras.
Aliás, deslizes nada. Só porque aqui a língua é outra, não quer dizer que a oficial esteja com a razão. Se você, em conversa, falar:
— Ah, fui lá comprar umas coisas...
— Que' s coisa? — ela retrucará.
Acreditam? O plural dá um pulo. Sai das coisas e vai para o que.
Ouvi de uma menina culta um "pelas metade", no lugar de "pela metade". E se você acusar injustamente uma mineira, ela, chorosa, confidenciará:
— Ele pôs a culpa "ni mim".
A conjugação dos verbos tem lá seus mistérios, em Minas... Ontem, uma senhora docemente me consolou: "preocupa não, bobo!". E meus ouvidos, já acostumados às ingênuas conjugações mineiras. nem se espantam. Talvez se espantassem se ouvissem um: "não se preocupe", ou algo assim. A fórmula mineira é sintética. e diz tudo.
Até o tchau. em Minas. é personalizado. Ninguém diz tchau pura e simplesmente. Aqui se diz: "tchau pro cê", "tchau pro cês". É útil deixar claro o destinatário do tchau. O tchau, minha filha, é prôcê, não é pra outra entendeu?
Deve haver, por certo, outras expressões... A minha memória (que não ajuda muito) trouxe essas por enquanto. Estou, claro, aberto a sugestões. Como é uma pesquisa empírica, umas voluntárias ajudariam... Exigência: ser mineira. Conversando com lingüistas, fui informado: é prudente que tenham cabelos pretos, espessos e lisos, aquela pele bem branquinha... Tudo, naturalmente, em nome da ciência. Bem, eu me explico: é que, características à parte, as conformações físicas influem no timbre e som da voz, e eu não posso, em honrados assuntos mineiros, correr o risco de ser inexato, entendem?
domingo, 12 de agosto de 2012
O Pai
Terra de semente inculta e bravia,
terra onde não há esteiros ou caminhos,
sob o sol minha vida se alonga e estremece.
Pai, nada podem teus olhos doces,
como nada puderam as estrelas
que me abrasam os olhos e as faces.
Escureceu-me a vista o mal de amor
e na doce fonte do meu sonho
outra fonte tremida se reflecte.
Depois... Pergunta a Deus porque me deram
o que me deram e porque depois
conheci a solidão do céu e da terra.
Olha, minha juventude foi um puro
botão que ficou por rebentar e perde
a sua doçura de seiva e de sangue.
O sol que cai e cai eternamente
cansou-se de a beijar... E o outono.
Pai, nada podem teus olhos doces.
Escutarei de noite as tuas palavras:
... menino, meu menino...
E na noite imensa
com as feridas de ambos seguirei.
Pablo Neruda, in "Crepusculário"
Terra de semente inculta e bravia,
terra onde não há esteiros ou caminhos,
sob o sol minha vida se alonga e estremece.
Pai, nada podem teus olhos doces,
como nada puderam as estrelas
que me abrasam os olhos e as faces.
Escureceu-me a vista o mal de amor
e na doce fonte do meu sonho
outra fonte tremida se reflecte.
Depois... Pergunta a Deus porque me deram
o que me deram e porque depois
conheci a solidão do céu e da terra.
Olha, minha juventude foi um puro
botão que ficou por rebentar e perde
a sua doçura de seiva e de sangue.
O sol que cai e cai eternamente
cansou-se de a beijar... E o outono.
Pai, nada podem teus olhos doces.
Escutarei de noite as tuas palavras:
... menino, meu menino...
E na noite imensa
com as feridas de ambos seguirei.
Pablo Neruda, in "Crepusculário"
"Esses
seus cabelos brancos, bonitos, esse olhar cansado, profundo
Me
dizendo coisas, um grito, me ensinando tanto, do mundo...
E
esses passos lentos, de agora, caminhando sempre comigo,
Já
correram tanto, na vida, meu querido, meu velho, meu amigo
Sua
vida cheia de histórias, e essas rugas marcadas pelo tempo,
Lembranças
de antigas, vitórias ou lágrimas choradas, ao vento...
Sua
voz macia, me acalma e me diz muito mais do que eu digo
Me
calando fundo, na alma, meu querido, meu velho, meu amigo
Seu
passado vive, presente, nas experiências, contidas,
Nesse
coração, consciente, da beleza das coisas, da vida.
Seu
sorriso franco, me anima, seu conselho certo, me ensina,
Beijo
suas mãos e lhe digo, meu querido, meu velho, meu amigo
Eu
já lhe falei de tudo,
Mas
tudo isso é pouco diante do que sinto...
Olhando
seus cabelos tão bonitos,
Beijo
suas mãos e digo, meu querido, meu velho, meu amigo"
Roberto e Erasmo Carlos
sábado, 11 de agosto de 2012
Clariceando
"Não gosto é quando pingam limão nas minhas profundezas e fazem com que eu me contorça toda."
Clarice Lispector In: Água Viva
Clarice Lispector In: Água Viva
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
Salve Jorge!
" Os homens valentes têm uma estrela no
lugar do coração. Mas nunca se ouviu falar de uma mulher que tivesse no
peito, como uma flor, uma estrela. As mulheres mais valentes da terra e
do mar da Bahia, quando morriam, viravam santas para os negros, como os
malandros que foram também muito valentes.”
Jorge Amado in: Capitães de Areia
Jorge Amado in: Capitães de Areia
É doce morrer no mar-
É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar
A noite que ele não veio foi
Foi de tristeza pra mim
Saveiro voltou sozinho
Triste noite foi pra mim
É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar
Saveiro partiu
de noite foi
Madrugada não voltou
O marinheiro bonito
sereia do mar levou
É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar
Nas ondas verdes do mar meu bem
Ele se foi afogar
Fez sua cama de noivo no colo de Iemanjá
É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar
A noite que ele não veio foi
Foi de tristeza pra mim
Saveiro voltou sozinho
Triste noite foi pra mim
É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar
Saveiro partiu
de noite foi
Madrugada não voltou
O marinheiro bonito
sereia do mar levou
É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar
Nas ondas verdes do mar meu bem
Ele se foi afogar
Fez sua cama de noivo no colo de Iemanjá
(canção escrita por Jorge Amado e Dorival Caymmi em 1941)
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
Clariceando
"Pois há tempo de rosas, outro de melões, e não comereis morangos senão na época de morangos."
Clarice Lispector in: A Descoberta do Mundo
Clarice Lispector in: A Descoberta do Mundo
terça-feira, 7 de agosto de 2012
Tudo De Novo
(Caetano Veloso)
Minha mãe, meu pai, meu povoEis aqui tudo de novo
A mesma grande saudade
A mesma grande vontade
Minha mãe, meu pai, meu povo
Minha mãe me deu ao mundo
De maneira singular
Me dizendo a sentença
Pra eu sempre pedir licença
Mas nunca deixar de entrar
Meu pai me mandou pra vida
Num momento de amor
E o bem daquele segundo
Grande como a dor do mundo
Me acompanha onde eu vou
Meu povo, sofremos tanto
Mas sabemos o que é bom
Vamos fazer uma festa
Noites assim, como essa
Podem nos levar pra o tom
PARABÉNS, CAETANO!
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
Clariceando
domingo, 5 de agosto de 2012
Clariceando
"De
repente as coisas não precisam mais fazer sentido. Satisfaço-me em ser. Tu és?
Tenho certeza que sim. O não sentido das coisas me faz ter um sorriso de
complacência. De certo tudo deve estar sendo o que é." Clarice Lispector in: Um sopro de vida
CRAVOS VERMELHOS
Bocas rubras de chama a palpitar,
Onde fostes buscar a cor, o tom,
Esse perfume doido a esvoaçar,
Esse perfume capitoso e bom?!
Sois volúpias em flor! Ó gargalhadas
Doidas de luz, ó almas feitas risos!
Donde vem essa cor, ó desvairadas,
Lindas flores d´esculturais sorrisos?!
...Bem sei vosso segredo...Um rouxinol
Que vos viu nascer, ó flores do mal
Disse-me agora: "Uma manhã, o sol,
O sol vermelho e quente como estriga
De fogo, o sol do céu de Portugal
Beijou a boca a uma rapariga..." Florbela Espanca
sábado, 4 de agosto de 2012
Pensar em Deus
Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou...
Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou...
Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos!...
Alberto Caieiro
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos!...
Alberto Caieiro
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Emas
Elas ficavam flanando, as emas.
Nos pátios da fazenda.
A gente sabia que as emas
comem vidros, latas de sardinha, sabonetes,
cobras, pregos.
Falavam que elas têm moelas de alicate.
Nossa mãe tinha medo que as emas comessem
nossas cobertas de dormir e os vidros de
arnica da avó.
Eu tinha vontade de botar cabresto na ema
e sair pelos campos montado nela.
A gente sabia
que a ema quase voa no correr.
E que quase dobra o vento no correr.
Eu tinha vontade de dobrar o vento no correr.
Manoel Barros,
Ilustrado por Siron Franco
Elas ficavam flanando, as emas.
Nos pátios da fazenda.
A gente sabia que as emas
comem vidros, latas de sardinha, sabonetes,
cobras, pregos.
Falavam que elas têm moelas de alicate.
Nossa mãe tinha medo que as emas comessem
nossas cobertas de dormir e os vidros de
arnica da avó.
Eu tinha vontade de botar cabresto na ema
e sair pelos campos montado nela.
A gente sabia
que a ema quase voa no correr.
E que quase dobra o vento no correr.
Eu tinha vontade de dobrar o vento no correr.
Manoel Barros,
Ilustrado por Siron Franco
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