Um cadim de tudo que gosto, música, literatura, fotografia e outras coisinhas que me fazem feliz....
sábado, 17 de agosto de 2013
quinta-feira, 15 de agosto de 2013
domingo, 11 de agosto de 2013
Mãe é tudo igual, só muda de endereço.
Não concordo 100% com essa afirmação, mas é verdade que nós, mães,
temos lá nossas semelhanças. Basta reunir uma meia-dúzia num recinto
fechado para se comprovar que, quando o assunto é filho, as experiências
são praticamente xerox umas das outras.
Por outro lado, quem
arriscaria dizer que pai é tudo farinha do mesmo saco? Nunca foram
devidamente valorizados, nunca receberam cartilhas de conduta e sempre
passaram longe da santificação. Cada pai foi feito à imagem e semelhança
de si mesmo.
As meninas, assim
que nascem, já são tratadas como pequenas "nossas senhoras" e começam a
ser catequizadas: "Mãe, um dia você vai ser uma". E dá-lhe informação,
incentivo e receitas de como se sair bem no papel. Outro dia, vi uma
menina de não mais de três anos empurrando um carrinho de bebê com uma
boneca dentro. Já era uma mini mãe. Os meninos, ao contrário, só pensam
nisso quando chega a hora, e aí acontece o que se vê: todo pai é fruto
de um delicioso improviso.
Tem pai que é desligado de nascença,
coloca o filho no mundo e acha que o destino pode se encarregar do
resto. Ou é o oposto: completamente ansioso, assim que o bebê nasce já
trata de sumir com as mesas de quinas pontiagudas e de instalar rede em
todas as janelas, e vá convencê-lo de que falta um ano para a criança
começar a caminhar.
Tem pai que solta dinheiro fácil. E pai que
fecha a carteira com cadeado. Tem pai que está sempre em casa, e
outros, nunca. Tem pai que vive rodeado de amigos e pai que não sabe o
que fazer com suas horas de folga. Tem aqueles que participam de todas
as reuniões do colégio e outros que não fazem ideia do nome da
professora. Tem pai que é uma geleia, e uns que a gente nunca viu chorar
na vida. Pai fechado, pai moleque, pai sumido, pai onipresente. Pai que
nos sustenta e pai que é sustentado por nós. Que mora longe, que mora
em outra casa, pai que tem outra família, e pai que não desgruda, não
sai de perto jamais. Tem pai que sabe como gerenciar uma firma,
construir um prédio, consertar o motor de um carro, mas não sabe direito
como ser pai, já que não foi treinado, ninguém lhe deu um manual de
instruções. Ser pai é o legítimo "faça você mesmo".
Alguns
preferem não arriscar e simplesmente obedecem suas mulheres, que têm
mestrado e doutorado no assunto. Mas os que educam e participam da vida
dos filhos a seu modo é que perpetuam o charme desta raça fascinante e
autêntica. Verdade seja dita: há muitas como sua mãe, mas ninguém é como
seu pai.
Martha Medeiros
sábado, 10 de agosto de 2013
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
domingo, 4 de agosto de 2013
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
O Cão Sem Plumas
A cidade é passada pelo riocomo uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.
O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.
Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.
Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.
Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos povos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.
Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.
(João Cabral de Melo Neto)
sábado, 27 de julho de 2013
Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez.
Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios.
MIA COUTO, in: JESUSALÉM
quinta-feira, 25 de julho de 2013
Aceitação
É mais fácil pousar o ouvido nas nuvens
e sentir passar as estrelas
do que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos.
É mais fácil, também, debruçar os olhos no oceano
e assistir, lá no fundo, ao nascimento mudo das formas,
que desejar que apareças, criando com teu simples gesto
o sinal de uma eterna esperança.
Não me interessam mais nem as estrelas, nem as formas do mar,
nem tu.
Desenrolei de dentro do tempo a minha canção:
não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar.
e sentir passar as estrelas
do que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos.
É mais fácil, também, debruçar os olhos no oceano
e assistir, lá no fundo, ao nascimento mudo das formas,
que desejar que apareças, criando com teu simples gesto
o sinal de uma eterna esperança.
Não me interessam mais nem as estrelas, nem as formas do mar,
nem tu.
Desenrolei de dentro do tempo a minha canção:
não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar.
Cecília Meireles in : Viagem
Vai-se a primeira pomba despertada…
Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada.
E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada.
Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;
No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem… Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais.
(Raimundo Correia)
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