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quarta-feira, 9 de julho de 2014

INSTALAÇÃO NA SQS 408

Poema de Angélica Torres Lima

Enforcado um rato
num galho de ipê
com fita
verde-amarela:

era o dois
do sete
de dois mil
e seis:

Parreira de viúvas
do passo torto
(sem Garrincha perto)
agora rói do fracasso
o osso.

Pobre zagueiro
artilheiro
pobre goleiro...
todos te querem
golaço colosso!

02.07.2006
A SELEÇÃO

Poema de Carlos Drummond de Andrade

Vai Rildo, não vai Amarildo?
Vão Pelé e, que bom. Mané,
o menino gaúcho Alcino
e nosso veterano Dino,
Altair, rima de Oldair,
ecoando na ponta: Ivair,
e na quadra do gol: Valdir.
Fábio, o que não pode faltar,
e também não pode Gilmar,
como, entre os santos dos santos,
o patriarca Djalma Santos,
sem esquecer o Djalma Dias
e, entre mil e uma noites, Dias.
Mas se a Comissão não se zanga,
quero ver, em Everton, Manga.
É canhoto, e daí? Fefeu,
quando chuta, nunca perdeu.
A chance que lhe foi roubada,
desta vez a tenha Parada.
Paraná, invicto guerreiro
para guerrear como aqui, lá.
Olhando pró chão, Jairzinho
é como joga legalzinho.
Não abro mão de Nado e Zito,
nem fique o Brito por não dito.
Ditão, é claro, por que não?
e o mineiríssimo Tostão,
o grande Silva, corintiana
glória e mais o áspero Fontana,
Dudu, Edu... e vou juntando
bons nomes ao nome de Orlando,
para chegar até Bellini
em cujas mãos a taça tine.
Célio, Servílio: suaves eles
já completados por Fidélis.
Edson, Denilson e Murilo,
cada um com seu próprio estilo.
Um lugar para Paulo Henrique
enquanto digo a Flávio: fique!
Com Paulo Borges bem na ponta
eu conto, e sei que você conta.
Na lateral, Carlos Alberto
estou certo que vai dar certo.
Acham tampinha Ubirajara?
Valor não se mede por vara.
Até parece de encomenda:
Leônidas, nome que é legenda.
E se Gérson do Botafogo
entra no campo, ganha o jogo.
Não podia esquecer o Lima
e seu chute de muita estima.
Com tudo isso e mais Rinaldo
e o canarinho de Ziraldo,
quarenta e seis, se conto bem
— um time igual eu nunca vi
em Europa, França e Belém —
que barbada seria o Tri,
hein?

(Correio da Manhã, 03-04-1966)

quinta-feira, 26 de junho de 2014

" Também a arte é uma maneira de viver, e é possível se preparar para ela de uma maneira ou de outra."

Rainer Maria Rilke
Me Encante 

Me encante da maneira que você quiser, como você souber.
Me encante, para que eu possa me dar…
Me encante nos mínimos detalhes.
Saiba me sorrir: aquele sorriso malicioso,
Gostoso, inocente e carente.

Me encante com suas mãos,
Gesticule quando for preciso.
Me toque, quero correr esse risco.

Me acarinhe se quiser…
Vou fingir que não entendo,
Que nem queria esse momento.

Me encante com seus olhos…
Me olhe profundo, mas só por um segundo.
Depois desvie o seu olhar.
Como se o meu olhar,
Não tivesse conseguido te encantar…

E então, volte a me fitar.
Tão profundamente, que eu fique perdido.
Sem saber o que falar…

Me encante com suas palavras…
Me fale dos seus sonhos, dos seus prazeres.
Me conte segredos, sem medos,
E depois me diga o quanto te encantei.

Me encante com serenidade…
Mas não se esqueça também,
Que tem que ser com simplicidade,
Não pode haver maldade.

Me encante com uma certa calma,
Sem pressa. Tente entender a minha alma.

Me encante como você fez com o seu primeiro namorado…
Sem subterfúgios, sem cálculos, sem dúvidas, com certeza.

Me encante na calada da madrugada,
Na luz do sol ou embaixo da chuva….

Me encante sem dizer nada, ou até dizendo tudo.
Sorrindo ou chorando. Triste ou alegre…
Mas, me encante de verdade, com vontade…

Que depois, eu te confesso que me apaixonei,
E prometo te encantar por todos os dias…
Pelo resto das nossas vidas!


(Pablo Neruda)
ARTE POÉTICA

Mirar o rio, que é de tempo e água,
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que passam os rostos como a água.

E sentir que a vigília é outro sonho
Que sonha não sonhar, sentir que a morte,
Que a nossa carne teme, é essa morte
De cada noite, que se chama sonho.

E ver no dia ou ver no ano um símbolo
Desses dias do homem, de seus anos,
E converter o ultraje desses anos
Em uma música, um rumor e um símbolo.

E ver na morte o sonho, e ver no ocaso
Um triste ouro, e assim é a poesia,
Que é imortal e pobre. A poesia
Retorna como a aurora e o ocaso.

Ás vezes, pelas tardes, uma face
Nos observa do fundo de um espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela nossa própria face.

Contam que Ulisses, farto de prodígios,
Chorou de amor ao avistar sua Ítaca
Humilde e verde. A arte é essa Ítaca
De um eterno verdor, não de prodígios.

Também é como o rio interminável
Que passa e fica e que é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.

Jorge Luis Borges

segunda-feira, 16 de junho de 2014

VANDALUZ - (1) Filosofia de Revolver "DVD Release"

POEMA DO DIA: um dia tentei mudar o mundo, de repente mudei com ele tudo, na medida da minha humilde fração ! Agora, : quando a dor do mundo grita ao meu coração, meu afeto por ele sussurra uma canção !
Vane Pimentel

sexta-feira, 13 de junho de 2014

O NOSSO

Amamos o que não conhecemos, o já perdido.
O bairro que já foi arredores
Os antigos que não nos decepcionaram mais
porque são mito e esplendor.
Os seis volumes de Schopenhauer que jamais terminamos de ler.
A saudade, não a leitura, da segunda parte do Quixote.
O oriente que, na verdade, não existe para o afegão, o persa ou o tártaro.
Os mais velhos com quem não conseguiríamos
conversar durante um quarto de hora.
As mutantes formas da memória, que está feita do esquecido.
Os idiomas que mal deciframos.
Um ou outro verso latino ou saxão que não é mais do que um hábito.
Os amigos que não podem faltar porque já morreram.
O ilimitado nome de Shakespeare.
A mulher que está a nosso lado e que é tão diversa.
O xadrez e a álgebra, que não sei.

Jorge Luis Borges

segunda-feira, 9 de junho de 2014

"Contei meus anos e descobrí que terei menos tempo para viver
daquí para frente do que já viví até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas.
As primeiras ele chupou displicente, mas percebendo que falta poucas
rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando
seus lugares e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis , para discutir assuntos inúteis
sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas , que apesar da idade
cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafetos, que brigaram pelo majestoso cargo de
secretário geral do coral.
As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa
Sem muitas jabuticabas na bacia , quero viver ao lado de gente humana, muito humana,
que saiba rir de seus tropeços, não se encanta com os triunfos, não se considera
eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade.
Só há que caminhar perto de coisas e pessoas de verdade.
O essencial faz a vida valer a pena.
E PARA MIM ,BASTA O ESSENCIAL."
"Mário de Andrade"

sábado, 7 de junho de 2014

"Lamento que o abraço esteja em desuso numa época em que a gente precisa tanto Um do Outro. Em que a gente precisa tanto sentir o Outro." Bibiana Benites

domingo, 1 de junho de 2014

"Enquanto não atravessarmos
a dor de nossa própria solidão,
continuaremos a nos buscar em outras metades.
Para viver a dois, antes, é
necessário ser um."             
Fernando Pessoa
"Na melhor das hipóteses eu sou a sucessão de erros tentando acertar. Então, não procure perfeição em mim. Não me faça cobranças. Se há algo a olhar, as cicatrizes representam as minhas sinceras tentativas para tornar-me melhor."  Ita Portugal 

segunda-feira, 26 de maio de 2014

AS COISAS

A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro,
Um livro e em suas páginas a ofendida
Violeta, monumento de uma tarde,
De certo inesquecível e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas e taças, cravos,
Nos servem como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão muito além de nosso olvido:
E nunca saberão que havemos ido.

Jorge Luis Borges
Possuo ingenuidade besta e sem nenhuma serventia. Uma delas é insistir nas migalhas das lembranças. Desejo bis para o preenchimento dos vazios. Padeço de uma esperança sem eira e nem beira. Sou promessa de um eterno enjoativo. Por vício, hábito ou sei lá o quê, guardo os cacos irrecuperáveis e me perco em horizontes sem fim, buscando respostas inúteis. Sei pouco, costumo inventar e prometer correção para minhas descomposturas. Juro que tudo vai mudar e quando dou por mim descubro que sua canção ainda rima perfeitamente com meus sagrados. 
Lamento apenas essa ilusão. É tarde para outras tentativas. 
Ita Portugal

sexta-feira, 23 de maio de 2014

“É verdade que eu não saberia viver sem a paixão; mas é verdade também que são tão poderosas suas forças na minha alma, que o seu tumulto me mata. Todas as paixões me pervertem. Todas as paixões me convertem. Sobrevivo pela graça de ser poeta” 
LÚCIO CARDOSO (Diário Completo)
#BomDia 
E quantas histórias!!! 

A experiência advém a partir do que vivenciamos! 
ARRISQUE-SE mais! 8-)

sábado, 17 de maio de 2014

Eu não preciso de um motivo especial para ser feliz...felicidade são pedacinhos de ternura que colho aqui e ali.(Cecília Meireles ) 

clariceando...

Porque, às vezes, acordar tem lá suas muitas desvantagens.

Clarice Lispector

Toma o amor guardado entre as conchas da minha mão. Dentro delas ouvi as ondas quebrando-se em pedras e o espetáculo de um pequeno musgo nascido à beira de um raio de sol. Dentro delas, ouvi a terra aninhando sementes e plantas entrelaçando a ponta de suas raízes. Finas raízes tentando sustentar o mundo sob as placas de cimento. As placas de cimento, de onde germinam as casas e crescem as pessoas, entrelaçando a ponta de seus braços e o mais fundo de seus corpos pela noite escura. Dentro delas, ouvi o mundo inteiro tentando ser par... e ouvi a ponta de tuas asas tocando minhas costas nuas, teu instrumento de cordas e suspiros profundos. 

Rita Apoena

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Bem no fundo do sonho estão os sonhos. A cada
Noite quero perder-me nas águas obscuras
Que lavam o dia, mas sob essas puras
Águas que nos concedem o penúltimo Nada
Pulsa na hora cinza o obsceno portento.
Pode ser um espelho com meu rosto distinto,
Pode ser a crescente prisão de um labirinto
Ou um jardim. O pesadelo sempre atento.
Seu horror não é deste mundo. Causa inominada
Alcança-me desde ontens de mito e de neblina;
A imagem detestada perdura na retina
A infama a vigília como a sombra infamada.
Por que brota de mim, quando o corpo repousa
E a alma fica só, esta insensata rosa?

Jorge Luis Borges

sexta-feira, 2 de maio de 2014


 PRECE

Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade....

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode ergue-la ainda.

Dá o sopro, a aragem - ou desgraça ou ânsia-
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistaremos a Distância -
Do mar ou outra, mas que seja nossa!

Fernando Pessoa in 'Mensagem'

Foto de PoetaManoelDeBarros.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Trêmula gota de orvalho
Presa na teia de aranha,
Rebrilhando como estrela.

Helena Kolody
Todo amanhã se cria num ontem, através de um hoje.
Temos de saber o que fomos, para saber o que seremos.

 Paulo Freire
CHEGARAM AS ESTRELAS

As estrelas chegaram úmidas
E suas frias pétalas pousaram
No meu rosto seco.
As estrelas chegaram trêmulas....
Pareciam flores que o vento esfolhara,
Da noturna árvore.

Murado e exausto,
Que consolo encontro nas estrelas
Que chegaram de repente!
Falaram-me de suas viagens,
Das regiões nuas que atravessaram,
Das fontes que cantam pelos espaços,
Das vozes que se ascendem em caminhos nunca vistos,
Na figura de Aglaia adormecida no céu,
E no sorriso de infância que na sua face flutua.
As estrelas chegaram loucas dos seus infinitos silêncios.
E falavam incessantemente.
Foi o orvalho de suas asas
Que molhou meus olhos!

 Augusto Frederico Schmidt

domingo, 20 de abril de 2014

“Se você não consegue entender o meu silêncio de nada irá adiantar as palavras, pois é no silêncio das minhas palavras que estão todos os meus maiores sentimentos.”

Oscar Wilde
"Que venham as cores, a poesia, a leveza e a liberdade dos fins das tardes de verão."

 Yohana Sanfer
"O menino tinha no olhar um silêncio de chão
e na sua voz uma candura de fontes."

|Manoel de Barros - Menino do Mato|
"O menino tinha no olhar um silêncio de chão
e na sua voz uma candura de fontes."

 Manoel de Barros in: Menino do Mato

sábado, 19 de abril de 2014

"Desmediocrize sua vida. Procure seus "desaparecidos", resgate afetos. Aprenda com quem tiver algo a e...nsinar, e ensine algo àqueles que estão engessados em suas teses de certo e errado. Troque experiências, troque risadas, troque carícias. Não é preciso chegar num momento-limite para se dar conta disso. O enfrentamento das pequenas mortes que nos acontecem em vida já é o empurrão necessário. Morremos um pouco todos os dias, e todos os dias devemos procurar um final bonito antes de partir. " Martha Medeiros

Dia de índio? DIA DE LUTA!


"Quem me dera ao menos uma vez
Ter de volta todo o ouro que entreguei a quem
Conseguiu me convencer que era prova de amizade
Se alguém levasse embora até o que eu não tinha"...

- Legião Urbana

Foto: Morre o escritor Gabriel García Márquez - Charge Opera Mundi"É necessário abrir os olhos e perceber que as coisas boas estão dentro de nós, onde os sentimentos não precisam de motivos nem os desejos de razão. O importante é aproveitar o momento e aprender sua duração, pois a vida está nos olhos de quem sabe ver" Gabriel Garcia Marquez